Cristiano Ronaldo: chegar aos mil golos justifica tanto sofrimento?

Internacional
Cristiano Ronaldo: chegar aos mil golos justifica tanto sofrimento?

Os dias mais recentes revelaram bastante sobre o Cristiano Ronaldo de agora. Talvez até mais do que aquilo que queríamos conhecer.

Na segunda-feira chegou o castigo. Ou, mais precisamente, chegou uma punição a que se decidiu dar esse nome, sem que verdadeiramente o mereça. Que utilidade tem, afinal, uma suspensão que não afasta o jogador de qualquer partida?

Sejamos claros: a sanção pode ter validade jurídica, estar apoiada em artigos, alíneas e pareceres. Mas uma punição, para o ser de facto, precisa de produzir um efeito disciplinar. A solução encontrada pelo Conselho de Disciplina não traz consequências concretas. Não castiga.

Acaba apenas por dar mais um motivo para evidenciar o absurdo de todo este episódio.

Por coincidência, logo no dia seguinte, terça-feira, diante do Neom, Ronaldo desperdiçou um penálti e outras duas ocasiões que tinham tudo para acabar em golo. Numa delas, a bola estava a dois metros da linha de golo. Um daqueles momentos capazes de deixar os adeptos de mãos na cabeça.

E é aqui, verdadeiramente, que está o motivo de preocupação.

Ao longo de mais de vinte anos, Cristiano convenceu-nos de que a passagem do tempo atingia todos menos ele. Sempre que parecia aproximar-se do limite, surgia mais um golo, mais um recorde, mais uma época excecional. Não parecia envelhecer: encontrava uma nova maneira de continuar.

Foi dessa forma que conquistou a nossa admiração. E, para muitos de nós, também o nosso amor.

Cada golo de Ronaldo parecia um golo nosso. Cada vitória dele era uma vitória partilhada. E, quando as lágrimas lhe caíam, também a nós os olhos ficavam húmidos.

Talvez isso explique como é difícil acompanhar o momento presente.

O problema não está no penálti desperdiçado. Qualquer jogador falha. Está no conjunto. Sobretudo, na impressão cada vez mais nítida de vermos alguém que insiste em pedir a si mesmo aquilo que o corpo já não é capaz de entregar.

E que, além disso, continua a reclamar dos outros que o sirvam em função do jogador que foi, mas que manifestamente deixou de ser.

Não é fácil pôr isto por escrito. Menos ainda para quem cresceu a vê-lo ultrapassar barreiras, fazer golos impensáveis e decidir partidas que já pareciam sem solução.

Só que o currículo não entra em campo por ninguém.

A polémica recente na Seleção tornou evidente a dificuldade desta conversa. Discutiram-se promessas, tempo de jogo, respeito pelo capitão e compromissos estabelecidos. Houve espaço para quase tudo, exceto para a pergunta essencial: ainda é Ronaldo a melhor resposta para a equipa?

As partidas pelo Al Nassr vão deixando a resposta, uma atrás da outra. Não é.

Falta depois outra pergunta, talvez ainda mais incómoda: até quando?

Durante quanto tempo continuaremos a dividir esta dor? Até serem alcançados os mil golos?

E compensa?

Chegar aos mil golos seria, evidentemente, um feito extraordinário. Mas existirá uma marca que torne aceitável converter a reta final de uma carreira sem paralelo numa provação interminável? Algum recorde merece que fiquemos presos à tristeza pelo jogador de hoje, em lugar de festejarmos aquele que ele foi?

Tudo isto enquanto a internet se entretém a juntar falhanços, bolas perdidas e outras caricaturas daquele que é o nosso ídolo?

Há nisto crueldade a mais. Dor a mais. Uma enorme falta de humanidade.

Durante toda a carreira, Ronaldo ofereceu-nos razões para festejar. Para quem o ama, seria profundamente triste que a chegada aos mil golos provocasse mais alívio do que alegria. Que fosse sentida como o ponto final de uma angústia, em vez de uma celebração.

Ou como o fim de um castigo. Agora, um verdadeiro.

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