Da glória em 2004 à revolução na formação: a Grécia prepara o seu «renascimento»

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Da glória em 2004 à revolução na formação: a Grécia prepara o seu «renascimento»

Passaram mais de duas décadas desde que a Grécia conquistou o futebol europeu, numa final que deixou más recordações em Portugal. Agora, os gregos tentam preparar um novo caminho até ao topo, sem ficarem à espera de uma geração que, de forma pontual, consiga contrariar todas as previsões.

No dia 4 de julho de 2004, no Estádio da Luz, Angelos Charisteas apontou o golo que valeu à seleção helénica o título mais importante da sua história. Aos 57 minutos, um cabeceamento do avançado resolveu a final com Portugal e encerrou uma das participações mais inesperadas de sempre num Europeu.

Com o alemão Otto Rehhagel no banco, a Grécia apresentara-se no torneio sem ter vencido qualquer encontro em fases finais de grandes competições. Regressou a casa campeã europeia, após bater os anfitriões duas vezes e afastar França e República Checa sem sofrer golos.

Na base dessa conquista estava uma identidade muito vincada, por vezes rotulada de «chata» e «desinteressante». Eram os comentários habituais perante uma equipa eficaz a defender em bloco baixo e difícil de ultrapassar.

A organização, o rigor tático, a força nos duelos e o aproveitamento das bolas paradas conduziram ao sucesso uma seleção que não dispunha do talento individual das grandes favoritas.

Seguiu-se a ausência do Mundial 2006, mas a Grécia garantiu depois presença no Euro 2008, no Mundial 2010, no Euro 2012 e no Mundial 2014. No Europeu disputado na Polónia e na Ucrânia, em 2012, atingiu os quartos de final. No Brasil, chegou pela primeira vez aos oitavos de final de um Mundial, sendo afastada pela surpreendente Costa Rica nas grandes penalidades.

Naquele mês de junho de 2014, dificilmente alguém imaginaria que esse encontro seria a última aparição grega numa grande competição.

A continuidade, porém, perdeu-se. A Grécia não esteve no Euro 2016, que traz melhores recordações aos portugueses, nem no Mundial 2018, no Euro 2020 ou no Mundial 2022. Também falhou o Euro 2024, ao perder com a Geórgia nas grandes penalidades do play-off, e voltou a ficar sem apuramento para o Mundial 2026.

O afastamento em relação a 2004 já não se explicava apenas pelo calendário. O futebol europeu evoluiu, os jogadores e os treinadores mudaram, mas os helénicos, um povo marcado pela história, não acompanharam essa transformação.

A identidade que sustentara uma década de presenças regulares ao mais alto nível deixara de bastar para colocar a Grécia entre as melhores seleções. O diagnóstico estava feito e as dificuldades não tinham origem apenas na equipa principal.

A Federação Helénica de Futebol reconheceu que precisava de atuar mais cedo no percurso dos atletas. Havia trabalho a fazer na preparação dos treinadores, na deteção de talento, nos formatos competitivos destinados às crianças e na criação de uma filosofia transversal, dos primeiros passos de um jogador até às seleções nacionais.

Para responder a essas necessidades, a Federação apresentou um projeto com um nome grego que traduz a sua ambição: Anagennisi.

A palavra significa «renascimento» em português. O início desse caminho, contudo, situa-se bem longe dos palcos da seleção principal: está nas crianças.

Anunciado em junho de 2025 e implementado a partir de setembro do mesmo ano, o Anagennisi foi concebido para estabelecer uma estrutura partilhada na formação dos futebolistas gregos.

Em vez de aguardar pelo aparecimento do talento, a ideia é garantir condições para o encontrar e desenvolver. A Federação procurou, por isso, um modelo aplicável tanto às academias dos clubes como às estruturas das associações regionais. Desenvolvido com a One For The Game, o programa foi ajustado às especificidades gregas, incidindo sobretudo nas idades entre os seis e os 14 anos.

Uma das primeiras alterações está na maneira de jogar. Os sub-6 e sub-7 passam a disputar jogos de 2x2. Aos oito anos, o formato é 3x3; aos nove e dez, 5x5; e dos 11 aos 13, 8x8. Só a partir dos sub-14 surge o futebol de onze.

Ter menos jogadores em campo não representa apenas uma mudança na organização das partidas. Corresponde a um princípio central do projeto: quanto maior for a participação de uma criança no jogo, maior será o seu desenvolvimento.

Equipas mais pequenas e espaços adequados a cada escalão proporcionam mais contactos com a bola, mais duelos individuais, dribles, remates e decisões em zonas reduzidas.

Não se pretende que as crianças imitem o futebol dos adultos. Procura-se oferecer-lhes um jogo adaptado à idade e às capacidades que já possuem.

Desta forma, o marcador deixa de ser o elemento central da formação. A Federação Grega quer trocar «uma cultura excessivamente orientada para a vitória» por uma «cultura de desenvolvimento».

O Anagennisi encoraja os jovens a pedir a bola, testar alternativas e aprender com as consequências, retirando-lhes a pressão de ganhar. Paralelamente, a Federação pretende estabelecer uma identidade comum.

Durante décadas, a imagem internacional do futebol grego esteve ligada ao rigor tático e à organização defensiva. Para os responsáveis pela reforma, essas qualidades já não chegavam para acompanhar outras nações.

O propósito não é eliminá-las, mas juntar-lhes jogadores com maior à-vontade na posse de bola e preparados para responder aos diferentes momentos de uma partida.

Uma mudança desta dimensão exige igualmente atenção a quem orienta a aprendizagem. Por isso, treinadores e academias estão integrados na mesma estratégia.

O alcance nacional ganha particular importância num país onde a geografia cria obstáculos próprios à descoberta de talento, com características muito próximas das portuguesas. Observar um futebolista em Atenas ou Salónica não coloca os mesmos desafios que acompanhar uma criança numa ilha ou numa zona afastada dos grandes centros.

Em articulação com as associações regionais, a Federação procura aproximar métodos, identificar academias e estabelecer um enquadramento que chegue além dos principais polos futebolísticos. Nos primeiros quatro meses de aplicação, o projeto já tinha promovido ações em 20 cidades e 32 associações regionais.

Alargar o número de jogadores observados, no entanto, não garante que se encontrem os melhores.

Adolescentes da mesma idade podem estar em etapas físicas muito distintas. Aos 15 anos, um jogador pode ser mais alto, forte e rápido do que outro sem que isso implique maior potencial dentro de cinco anos. É sobre esta diferença que atua o programa Future Teams.

Integrado no Anagennisi, este sistema acompanha os chamados «late developers»: jovens com maturação biológica mais tardia que poderiam ser excluídos por uma seleção centrada no rendimento imediato, antes de conseguirem completar o seu desenvolvimento.

A estratégia procura, assim, resolver diferentes parcelas de um problema mais vasto. O seu efeito real só poderá ser avaliado ao fim de vários anos.

Importa sublinhar que Konstantinos Karetsas, do Borussia Dortmund, Christos Mouzakitis, do Hull City, e Charalampos Kostoulas, do Brighton, não resultam do Anagennisi. Demonstram, isso sim, que existe talento e um conjunto de qualidades que a Federação Helénica pretende tornar recorrentes, em vez de excecionais. Algumas academias gregas já faziam esse trabalho, como ilustram os percursos destes jogadores.

O exemplo mais expressivo surgiu fora da Grécia, um ano antes de o projeto ser apresentado. Em 22 de abril de 2024, em Nyon, o Olympiakos de Sotiris Silaidopoulos, atual técnico do Rio Ave, venceu o Milan por 3-0 e conquistou a UEFA Youth League, a principal prova europeia de clubes para sub-19.

Até então, nenhum conjunto grego alcançara sequer os quartos de final da competição. O Olympiakos passou a ser o primeiro vencedor grego da Youth League e também o primeiro clube do país a levantar um troféu numa competição organizada pela UEFA.

Duas décadas depois do Euro 2004, a Grécia celebrava novamente uma conquista europeia no futebol. Agora, o protagonismo pertencia aos mais jovens, com características muito diferentes.

Bastaram poucos meses para Mouzakitis e Kostoulas conquistarem espaço na equipa principal do Olympiakos. Mouzakitis chegou também à seleção ainda adolescente. Papakanellos, que marcou um dos golos da final e atualmente representa o Rio Ave, recebeu igualmente oportunidades entre os seniores. Os vencedores da formação começavam a superar a distância que tantas vezes existe entre uma promessa e um jogador no seu expoente máximo.

O clube de Evangelos Marinakis não constituía, porém, um exemplo isolado. No norte da Grécia, o PAOK consolidava uma estrutura capaz de fornecer jogadores à equipa principal e de os lançar no futebol internacional. Giannis Konstantelias e Konstantinos Koulierakis foram dois dos nomes que saíram desse percurso, chegando cedo aos seniores e à seleção.

Em 2026, o futebol grego apresenta um número pouco habitual de jovens a evoluir em simultâneo. Pela primeira vez em vários anos, falar do futuro da seleção já não significa começar pela escassez de jogadores, mas pelas várias alternativas que vão surgindo.

Karetsas tem 18 anos, enquanto Mouzakitis e Kostoulas têm 19. Nenhum era nascido no momento em que Charisteas apontou o golo que fez da Grécia campeã da Europa.

Para os três, o Euro 2004 é uma recordação recebida através da família, não uma experiência vivida. Esta geração começa agora a oferecer ao futebol grego uma identidade diferente da que acompanhou a seleção durante grande parte deste século.

Karetsas concentra muitas das atenções. Filho de gregos, nasceu em Genk, na Bélgica, e fez a sua aprendizagem nas academias de Genk e Anderlecht. Com 15 anos, tornou-se o mais jovem jogador a marcar no futebol profissional belga e, pouco depois, começou a impor-se na equipa principal do Genk.

Nas seleções, o caminho teve uma mudança de direção. Representou a Bélgica nos escalões de formação, incluindo os sub-21, mas optou pela Grécia no futebol sénior.

A estreia pelos gregos aconteceu em março de 2025, diante da Escócia. Dias mais tarde, marcou em Hampden Park na segunda mão do play-off da Liga das Nações e passou a ser o mais jovem goleador de sempre da seleção helénica. Tinha apenas 17 anos.

Mouzakitis seguiu uma via distinta. Chegou à academia do Olympiakos aos sete anos e realizou praticamente todo o percurso de formação no Pireu. Integrou a equipa vencedora da Youth League em 2024 e, meses depois, já ocupava um lugar no meio-campo da equipa principal.

Também se estreou na seleção sénior aos 17 anos, passando de promessa da formação a internacional grego em poucos meses. Em 2025, recebeu o Golden Boy Web, distinção ligada ao Golden Boy e atribuída por votação pública.

No verão seguinte, trocou o Olympiakos pelo Hull City, recém-promovido à Premier League, num negócio avaliado em cerca de 15 milhões de euros. Chegou a Inglaterra com 19 anos e 78 partidas pela equipa principal do clube onde crescera. Na conquista da Youth League, tivera Kostoulas ao seu lado.

Kostoulas, um avançado móvel, forte fisicamente e apto a desempenhar várias funções no ataque, também transitou diretamente da academia para a equipa principal do Olympiakos. Em junho de 2025, o Brighton investiu cerca de 35 milhões de euros na sua contratação. Aos 18 anos, tornou-se, naquele momento, a venda mais elevada de sempre de um clube grego.

Outra parte desta geração tem raízes no PAOK. Foi em Salónica que se afirmaram Konstantelias, um criativo que joga entre linhas e desequilibra com bola, e Koulierakis, um defesa-central que chegou à seleção principal aos 18 anos.

Koulierakis foi o primeiro a sair. Deixou o PAOK pelo Wolfsburgo e, no verão deste ano, transferiu-se para a Roma. Konstantelias continuou mais tempo no clube formador, até ser contratado pelo Borussia Dortmund em agosto deste ano.

Da formação do PAOK saiu também outro dos nomes de destaque da seleção atual.

O percurso de Christos Tzolis ajuda a compreender por que motivo a evolução de um jovem não deve ser vista como uma linha reta. Estreou-se cedo no PAOK, tornou-se internacional sénior ainda adolescente e mudou-se para o Norwich em 2021. A primeira passagem por Inglaterra não correspondeu de imediato às expectativas. Depois de empréstimos e de uma etapa no Fortuna Düsseldorf, encontrou estabilidade no Club Brugge.

Em solo belga, voltou a acelerar. Nas duas temporadas ao serviço do Brugge, somou 43 golos e 45 assistências em 108 encontros, foi escolhido como jogador da temporada da liga belga e contribuiu para a conquista do campeonato. Em julho de 2026, o Arsenal pagou cerca de 40 milhões de euros pelo seu regresso à Premier League e a Inglaterra, cinco anos depois.

A diversidade destes caminhos explica parte da diferença desta geração. Há quem tenha feito toda a formação na Grécia e quem tenha crescido fora do país. Uns atingiram a elite muito cedo; outros precisaram de mais tempo. O talento surge do Olympiakos, do PAOK e de academias estrangeiras, distribuído por diferentes posições.

Aos jovens acrescenta-se a experiência ofensiva de Vangelis Pavlidis, do Benfica, e Anastasios Douvikas, do Como, ambos com 27 anos. Atrás, surgem Kostas Mavropanos, do West Ham, e Kostas Tsimikas, do Liverpool, de 28 e 30 anos, respetivamente. Há ainda os sportinguistas Fotis Ioannidis, com 26 anos, e Georgios Vagiannidis, com 25.

É esta mistura que começa a mudar a forma como se olha para a seleção.

A transformação ganhou maior visibilidade em 2024, quando Ivan Jovanović assumiu o comando técnico. Natural da antiga Jugoslávia e profundo conhecedor do futebol grego, onde desenvolveu grande parte da carreira de jogador e treinador, recebeu uma equipa que acabara de perder o acesso ao Euro 2024 nas grandes penalidades com a Geórgia.

A Grécia mantém o apreço pelas características presentes nas suas melhores seleções. A novidade está na variedade de respostas de que dispõe depois de recuperar a bola.

Os primeiros indícios surgiram na Liga das Nações 2024/25. A equipa venceu cinco dos seis jogos da fase de grupos e, nesse percurso, alcançou um resultado com significado histórico particular.

Em 10 de outubro de 2024, derrotou a Inglaterra por 2-1 em Wembley, conseguindo a primeira vitória de sempre sobre os ingleses. O triunfo surgiu num momento emocionalmente difícil: George Baldock, internacional grego de 31 anos, morrera na véspera. Os companheiros decidiram jogar e dedicaram-lhe a vitória, construída com dois golos de Pavlidis.

Os gregos terminaram com os mesmos 15 pontos de Inglaterra, mas os critérios de desempate deixaram-nos no segundo lugar. Seguiu-se um play-off de promoção frente à Escócia.

No Pireu, a primeira mão acabou numa derrota por 1-0. Três dias depois, em Hampden Park, a nova geração mostrou de forma especialmente evidente a transformação em curso.

Jovanović lançou Karetsas e Tzolis no onze, enquanto Mouzakitis, ainda adolescente, foi igualmente titular no meio-campo. Konstantelias inaugurou o marcador, Karetsas apontou o segundo golo e Tzolis fixou o 3-0.

Pela primeira vez, a Grécia garantiu a subida à Liga A da Liga das Nações.

Nos dois encontros já disputados no escalão principal, os helénicos somam duas vitórias. Primeiro, deram a volta ao resultado em Belgrado e bateram a Sérvia por 1-2. Depois, conseguiram um triunfo histórico na Alemanha, por 0-1. À data deste artigo, ocupam a liderança de um grupo que inclui também os Países Baixos.

O Mundial 2026 deveria representar a etapa seguinte. No apuramento, a Grécia integrou um grupo com Dinamarca, Escócia e Bielorrússia. Abriu a campanha com um triunfo por 5-1 diante dos bielorrussos, mas as derrotas posteriores comprometeram rapidamente as suas possibilidades. O regresso à fase final de um Campeonato do Mundo voltou a não acontecer.

Por isso, este renascimento ainda precisa de ser avaliado através de qualificações, e não apenas dos clubes representados pelos jogadores ou dos montantes envolvidos nas transferências.

Talvez seja essa exigência que melhor esclareça a urgência e a importância do Anagennisi. A reforma não nasceu para assegurar a presença destes talentos no próximo Europeu. Foi desenhada para que o futuro da seleção não fique dependente da capacidade de uma única geração para chegar lá.

Em 2004, a Grécia demonstrou o que uma equipa pode alcançar quando encontra uma identidade ajustada aos seus jogadores. Hoje, tenta garantir que continuará a haver futebolistas para construir a equipa seguinte. É uma alteração de perspetiva.

O próximo grande alvo está definido. Depois de falhar o Mundial 2026, a seleção terá no Euro 2028 outra oportunidade, embora o horizonte do futebol grego já se estenda para lá da próxima qualificação.

A geração atual pode, sem dúvida, devolver o país às grandes competições. O êxito do Anagennisi, porém, será medido pelos jogadores que surgirem a seguir.

As primeiras crianças que completarão todo o percurso do novo modelo ainda jogam em campos pequenos, em partidas de dois contra dois, três contra três ou cinco contra cinco. Algumas só entrarão no futebol profissional na próxima década; muitas nunca lá chegarão.

Chegar ao Euro 2028 não será, isoladamente, uma demonstração de que a reforma resultou. Da mesma maneira, outro apuramento falhado não bastará para decretar o fracasso do modelo. A ambição grega não é reproduzir 2004, mas deixar de precisar de um acontecimento extraordinário para recuperar relevância.

Naquele ano, foram necessários 23 dias para transformar uma seleção sem vitórias em fases finais de grandes torneios na campeã da Europa. O próximo avanço terá, obrigatoriamente, outro tempo de construção.

Mais do que montar uma equipa capaz de surpreender a Europa num verão, a Grécia quer criar um sistema que a coloque efetivamente no mapa do futebol.

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