Fazendense perdeu com o Estrela, mas a festa da Taça foi muito além do resultado

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Fazendense perdeu com o Estrela, mas a festa da Taça foi muito além do resultado

Há dias que mostram por que razão a Taça tem uma festa tão especial.

Neste sábado, Fazendas de Almeirim interrompeu a rotina para receber o futebol. Não se tratava de mais uma partida: pela primeira vez, o modesto Fazendense tinha pela frente um adversário da Liga.

A equipa do distrito de Santarém perdeu com o Estrela da Amadora. A derrota, porém, não apagou a celebração que atravessou o dia inteiro, desde as horas anteriores ao encontro até muito depois do apito final.

O início estava marcado para as três e meia. Antes disso, havia outro ponto de encontro: o bar do clube. Ainda faltava mais de uma hora para a bola começar a rolar e a sede do Fazendense já reunia muita gente. E várias cores.

Por ali, os adeptos do Fazendense falavam em «confraternizar» antes de uma suposta «porrada». Tudo em tom de brincadeira, como os sorrisos deixavam perceber.

«Agora confraternizamos, bebemos uns copos, mas depois do jogo andamos à porrada. Já agendámos para as sete da tarde», explicavam.

A cumplicidade sugeria uma amizade antiga. Afinal, aquele grupo tinha-se conhecido apenas ao almoço. A coincidência de escolherem o mesmo restaurante dera origem a uma ligação inesperada.

«Se formos a penáltis ganhámos nós», garantiu João Simões, adepto do Fazendense. Julguei que estivesse a antecipar o desfecho da partida e perguntei: «E no prolongamento?» A explicação desfez o equívoco: «Penáltis estava a falar aqui no bar...» O assunto era cerveja. Também havia competição longe do relvado.

Simões, que passou pela formação do Fazendense e chegou a jogar pela equipa sénior, surpreendeu ainda os presentes com uma declaração sobre o significado de um eventual triunfo.

«Se o Fazendense ganhasse seria o meu momento mais alto como adepto de futebol. Mais do que o Euro 2016».

A comparação provocou de imediato a reação indignada de um adepto do Estrela, incrédulo com a possibilidade de aquela vitória superar a conquista do Europeu.

A boa disposição era a imagem da festa da Taça. Pelo meio, já ofereciam bebida ao jornalista e treinavam penáltis, desta vez com bola, não com copos. Serviu de aquecimento para o encontro. Não consegui perceber quem venceu, mas os golos foram escassos.

Deixei-os explorar o João Moutinho que cada um trazia dentro de si e segui para o espaço destinado aos jornalistas. Ou, mais precisamente, para a bancada dos convidados.

Depois de alguma indefinição sobre o lugar onde me instalar, foi nessa zona reservada que acompanhei o jogo. Fiquei entre adeptos, com o presidente da Junta de Freguesia também por ali, sem internet nem possibilidade de carregar o computador. Eram contrariedades pequenas num dia em que a festa não merecia ser interrompida.

Com a partida em andamento, chegava o momento de puxar pelos «seus meninos». Todos lhes eram familiares. A forma como falavam dos jogadores não tinha distância: parecia que acompanhavam os próprios filhos.

«É por isso que não costumo vir à bola. É só sofrer», desabafou uma adepta.

No Estádio Prof. José Sousa Gomes, o futebol apresentava-se sem artifícios. Durante o encontro, havia até miúdos da formação sentados no relvado. Mais tarde, mandaram-nos sair daquele sítio, mas apenas porque dali não se conseguia ver bem a bola.

A cada recuperação de posse chegavam aplausos. Pelo meio, também sobravam palavras para a arbitragem. As gentes de Fazendas de Almeirim desfrutavam da Taça sem deixar de observar com atenção quem estava do outro lado.

«Correm muito. Olha para aquele, parece uma torre. São todos grandes, os nossos são baixinhos», comentavam, entre sorrisos.

A maior explosão de alegria ficou guardada para os 79 minutos. O Fazendense marcou e o estádio soltou-se. Aquele momento representava muito mais do que um golo ou uma bola parada bem executada.

Era a esperança a ganhar forma, a confirmação de que os jogadores da casa podiam discutir o jogo com uma equipa da Liga. Estava mesmo a acontecer. O que parecera impossível tornava-se, de repente, mais próximo.

O responsável por esse instante foi Ivanilson, defesa que dividiu balneário com Heldon e Ricardo Mangas. Assinou o golo histórico que permitiu alimentar o sonho, embora recusasse ficar sozinho com o mérito.

«Não é um golo só meu. É da equipa e de todo o clube. É para o povo daqui de Fazendas de Almeirim. É gratificante ser o homem que fez o golo. Apesar da eliminação, é o bolo para todo o trabalho que temos vindo a fazer», afirmou.

Sobre os primeiros pensamentos depois de marcar, explicou: «Só pensei em festejar com os adeptos... eles estiveram lá desde o inicio do jogo. Queria estar com os meus colegas... dançar. Não há melhor sensação do que fazer um golo».

Apesar do ambiente vivido ao longo do dia, Ivanilson não escondia uma perspetiva diferente sobre a celebração. «Festa? Se há festa ainda ninguém me disse nada. Mas não sei... não gosto de festejar na derrota, mesmo que tenha feito um golo», concluiu.

Uma hora depois do fim da partida, o relvado já pertencia aos jovens da formação. Inspirados pelo que tinham acabado de ver, procuravam também eles ter os seus momentos de brilho.

O bar, do outro lado, estava ainda mais cheio. Entre familiares e adeptos encontravam-se igualmente os jogadores. Comiam, bebiam e partilhavam sorrisos, apesar do desaire.

Costuma dizer-se que «não há vitórias morais». Será difícil convencer disso as gentes de Almeirim. Há conquistas que o marcador não traduz, e naquele clube todos, sem exceção, davam corpo a essa ideia.

Na primeira vez que defrontaram uma equipa da Liga, estiveram à altura do desafio. Deram orgulho à sua gente e levaram Fazendas de Almeirim ao topo do futebol nacional. Razões para celebrar não faltavam.

«Já vais? Fica aqui a beber com a gente», convidou o mesmo adepto do Fazendense. Era uma tentação para desviar o jornalista do trabalho. «Não posso, tenho de voltar para escrever isto», respondi.

Acabou por aceitar a despedida. Ficou, no entanto, uma promessa a João Simões: regressar a Fazendas de Almeirim para assistir a um jogo na sua companhia e, nessa altura, participar também na festa.

Desta vez, a celebração pertencia-lhes por inteiro. Era do Fazendense. Não aconteceu o 10-0 de que Simões falara antes da partida. Pelo contrário, a equipa quase ameaçou levar a discussão para prolongamento. Havia motivos para sentir orgulho.

Foi uma jornada histórica, daquelas que a prova rainha sabe oferecer. O Fazendense perdeu, mas o resultado acabou remetido para um lugar secundário. Afinal, o futebol não se resume a uma bola em movimento.

E a «porrada» anunciada para depois do encontro? Não aconteceu. Os adeptos do Estrela da Amadora que conhecera antes do jogo voltaram a juntar-se aos do Fazendense, novamente de copo na mão. Ficou apenas a dúvida: terão chegado a disputar aquela competição de penáltis?

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