Insolvência do Boavista: administradora censura declarações da Direção
Clarisse Barros, administradora da insolvência do Boavista, considerou não ser «aceitável» tentar atribuir à gestora judicial responsabilidades que cabem a quem dirige o clube axadrezado.
A reação surge depois das declarações do presidente do clube, Rui Garrido Pereira, que afirmou acreditar na possibilidade de reverter o encerramento do Boavista, previsto para o final de outubro, e questionou de forma contundente a atuação da administradora.
Numa comunicação dirigida ao presidente da Direção, Rui Garrido Pereira, e à Lusa, Clarisse Barros expressou «profunda tristeza» e «inequívoco desagrado» perante as recentes intervenções públicas do dirigente sobre o processo de insolvência.
A administradora sublinha que não lhe podem ser imputadas responsabilidades «pelas opções de gestão, decisões estratégicas ou pela (in)capacidade da Direção em assegurar a sustentabilidade financeira do clube».
Clarisse Barros lamenta e repudia as declarações alegadamente feitas pelo presidente, em particular a afirmação de que «não se entende a ação da administradora de insolvência».
A responsável lembra que a sua atuação está estritamente enquadrada pela lei e pelas decisões do tribunal e dos credores. Nesse sentido, salienta que «a responsabilidade pela apresentação de soluções credíveis, pela sua viabilidade e pela obtenção dos meios necessários à concretização dos objetivos anunciados não pode ser confundida com a responsabilidade de quem acompanha e atua no âmbito de um processo de insolvência».
Na mesma comunicação, recorda que a maioria dos credores rejeitou o plano de recuperação na assembleia realizada a 7 de outubro, ficando determinado que o processo avançaria para a liquidação do ativo.
Embora o encerramento do clube tenha sido adiado para o próximo dia 31 de outubro de 2026, por solicitação da própria insolvente, a administradora critica a ausência de referência a esse prazo nas intervenções públicas da Direção do Boavista. Considera que essa omissão pode induzir em erro os associados e a opinião pública.
Clarisse Barros explica ainda que a ata foi divulgada junto de diretores, coordenadores e atletas unicamente para alertar os envolvidos para a possibilidade real de encerramento da atividade.
«A situação do clube é demasiado séria para que a comunicação institucional se transforme num instrumento de transferência de responsabilidades ou de construção de narrativas que não correspondem à realidade dos factos, o que, de todo, não tolero», afirma na missiva.
Por ocasião da última assembleia de credores, o presidente da Direção do Boavista assegurou à Lusa que estava empenhado em negociar com as entidades credoras, procurando apresentar um novo plano viável até ao final do mês.
Rui Garrido Pereira afirmou também que o clube continua «em atividade, de acordo com o que vem sucedendo desde a reabertura da atividade do clube».
A administradora criticou igualmente um procedimento recente relativo à marca Boavista FC, que classificou como «no mínimo reprovável». Adiantou que a situação está a ser devidamente analisada para determinar se configura uma tentativa de empobrecimento da massa insolvente.
A 10 de outubro, a associação Panteras Negras denunciou uma alegada tentativa de apropriação indevida da marca Boavista Futebol Clube pelo presidente do clube, Rui Garrido Pereira, e pelo presidente-adjunto, Reinaldo Ferreira, mediante o registo da designação em nome da sociedade privada Boavista Global, Lda.
A claque acusou os responsáveis da Direção de porem em perigo o património e os símbolos da instituição.
Através de um comunicado subscrito pelo presidente da associação, Nuno Fonseca, o grupo informou ter remetido uma exposição urgente à administradora judicial, Clarisse Barros. Nessa exposição, pediu a adoção de todas as providências cautelares e a oposição formal para impedir que o registo fosse concedido à Boavista Global, Lda.
A associação requereu também que a denúncia fosse junta ao processo de insolvência e que fosse apresentada de imediato uma participação criminal ao Ministério Público, com o objetivo de responsabilizar criminal e civilmente os dirigentes visados.
A liquidação do clube tinha sido aprovada em setembro de 2025, após a apresentação de dívidas superiores a 150 milhões de euros. Posteriormente, o tribunal permitiu a continuidade da atividade, condicionada ao cumprimento de condições financeiras.
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