Merino contrariou o «impossível», foi ao Mundial e eliminou Portugal

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Merino contrariou o «impossível», foi ao Mundial e eliminou Portugal

Mikel Merino destacou-se entre os protagonistas da seleção espanhola campeã do Mundial 2026, embora, quatro meses antes da competição, um médico lhe tivesse dito que seria «impossível» participar, por causa de uma lesão no pé direito. Após uma cirurgia e a colocação de dois parafusos, venceu a corrida contra o tempo e tornou-se uma espécie de amuleto da La Roja: marcou dois golos determinantes nas eliminatórias, um deles contra Portugal.

Numa carta publicada no Players’ Tribune, o médio espanhol recua a fevereiro, mês em que um exame revelou uma fratura de stress no pé direito. A gravidade da lesão levou a uma previsão de, pelo menos, seis meses de recuperação, cenário que o deixaria fora da fase final do Mundial.

Sem querer acreditar, Merino questionou: «Tem a certeza?». A resposta do médico foi taxativa: «Mikel, desculpa. É impossível».

A leitura dos relatórios clínicos levou-o até a interrogar-se sobre a possibilidade de voltar a jogar futebol. Precisou de alguns dias para assimilar o diagnóstico, mas acabou por decidir desafiar aquele prognóstico. Para alimentar a determinação, repetia: «Vou estar no Mundial, aconteça o que acontecer».

No dia da cirurgia, logo de manhã, recebeu a visita de um controlo antidoping. «É por isso que lhes chamamos vampiros. Querem o teu sangue e aparecem quando menos esperas», escreveu. Nem essa situação absurda lhe retirou a motivação.

Durante os dois primeiros meses de recuperação, deslocou-se de muletas e precisou da ajuda da mulher, que estava grávida. Depois, optou por comprar uma scooter destinada a pessoas com mobilidade reduzida. Escolheu uma vermelha.

O filho, Marco, nasceu a 30 de abril. «Estava todo sujo. Tinha a pele azulada. Estava a chorar. O menino mais lindo do mundo», recorda. Alguns dias mais tarde, Merino voltou a correr. «Sem dores. Finalmente, conseguia ver a luz ao fundo do túnel», lembra o médio, numa altura em que tinham decorrido três meses desde a operação.

Entretanto, a temporada aproximava-se rapidamente do fim. O Arsenal conquistou o campeonato inglês, 22 anos depois, e alcançou também a final da Champions, que perdeu diante do PSG. Merino regressou à competição na última jornada da Premier League, disputando a meia hora final frente ao Crystal Palace. «Tinha de mostrar ao Luis (de la Fuente) que estava preparado», explicou. O selecionador espanhol ficou convencido.

No dia em que foi divulgada a convocatória, viu o seu nome aparecer no ecrã, beijou o filho e abraçou a mulher. «Vou ao Mundial», celebrou.

«O torneio começou a sério na fase a eliminar», relata. A Espanha ultrapassou a Áustria por 3-0 nos 16 avos de final e defrontou Portugal nos oitavos. «Faltavam cinco minutos…», lembra Merino, lançado no ataque quando o marcador ainda assinalava um empate sem golos.

«Claro que eu não sou propriamente um ponta de lança. No Dortmund, cheguei a jogar alguns jogos a defesa-central! Mas, como essa experiência resultou tão bem no Arsenal, o Luis também começou a utilizar-me nessa posição e, sinceramente, adoro. Não sou rápido, mas consigo ter uma visão global do jogo. Mesmo antes de começar a jogar nessa posição, pensava muito na forma como um ponta de lança se devia movimentar», explicou.

Pouco tempo após entrar, assinou o golo que levou os espanhóis aos quartos de final. Nessa ronda, voltou a decidir: marcou aos 88 minutos contra a Bélgica, fixando o resultado em 2-1, apenas dois minutos depois de ter sido lançado em campo.

Estava construída a fama de herói improvável, e a expectativa de um golo seu acompanhava cada partida. Na meia-final com a França, vencida por 2-0, esteve perto de marcar de cabeça. A avó não lhe poupou o reparo: «Um Merino não falha aquilo».

Na final diante da Argentina, que terminou com uma vitória espanhola por 1-0, a sua contribuição passou por bloquear com o corpo um remate de Lionel Messi. «Ele rematou com força. BANG. Em cheio na minha cara. Caí ao chão como se tivesse levado um tiro - e, na prática, tinha levado. A pancada foi tão forte que fiquei mesmo sem ver de um olho durante o resto do jogo.» No fim, o sacrifício compensou.

«Quando o árbitro apitou para o fim do jogo, senti uma enorme onda de alívio, porque não tínhamos deitado tudo a perder. E, então, surgiu uma imagem na minha mente. Eu, em criança, com uma bola. Sem palavras, sem poesia, apenas aquela imagem. Conseguia ver aquele miúdo a dizer à mãe que, um dia, iria ganhar o Campeonato do Mundo. E agora, aquele mesmo miúdo corria pelo relvado em Nova Jérsia, como campeão do mundo. Foi difícil, sim. Mas não foi impossível.» Ficava assim cumprido o sonho de infância.

Neste testemunho emotivo, Mikel Merino recuperou ainda a memória de um episódio traumático vivido em 2017, quando era jogador do Borussia Dortmund.

«Acho que tenho um anjo da guarda. Tenho muita sorte por estar vivo. Tinha 20 anos e jogava no Dortmund quando três bombas artesanais, colocadas em tubos, explodiram mesmo ao lado do nosso autocarro, enquanto nos dirigíamos para um jogo da Liga dos Campeões (frente ao Mónaco). Ouviu-se um estrondo ensurdecedor e, depois, lembro-me de o autocarro quase se virar. Olhei para trás e vi sangue no chão. Fumo, gritos», contou.

«No dia seguinte, alguém me disse que um enorme fragmento da explosão tinha ficado cravado no encosto de cabeça do banco ao lado do Marc Bartra. O meu lugar habitual. Nesse dia, o lugar estava vazio. Sentia as pernas um pouco tensas e os bancos da frente reclinavam-se. Por isso, sentei-me lá à frente em vez de me sentar no meu lugar habitual, e isso pode ter-me salvado a vida.» Uma mudança de lugar que poderá ter feito toda a diferença.

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