Miguel Moita entre os trails e o Médio Oriente: a prioridade é treinar em Portugal
Miguel Moita, que conquistou a II Liga na temporada passada como treinador do Marítimo, mantém que tomou a decisão certa ao pedir para sair no final da época. Atualmente sem clube, o técnico explica que não sentia a empatia nem o apoio necessários ao trabalho que estava a desenvolver.
Após vários anos fora do país como adjunto de Leonardo Jardim, atual treinador do Flamengo, pretende dar continuidade ao percurso como treinador principal, iniciado há um ano. A prioridade é encontrar um projeto sustentado nas competições profissionais portuguesas, apesar das abordagens provenientes do Médio Oriente, uma região onde já trabalhou.
Numa entrevista em que se apresenta como um treinador equilibrado, Moita conta como tem ocupado esta pausa, entre a família e a prática desportiva, e revisita a temporada de sucesso na Madeira. A conversa aborda também os conselhos de Leonardo Jardim, o papel de um diretor-desportivo como Luís Campos e a sua perspetiva sobre Kylian Mbappé e Bernardo Silva, jogadores que orientou no Mónaco.
Família e desporto durante a pausa
Enquanto não apareceu um novo projeto, Miguel Moita decidiu dedicar mais tempo à família. A reta final no Marítimo tinha sido particularmente intensa e emocionalmente desgastante. A subida de divisão e a conquista do campeonato foram momentos marcantes, mas também exigentes, que o levaram a sentir necessidade de fazer uma pausa.
As férias em família ajudaram-no a desligar. Desde então, tem aproveitado para fazer atividades que dificilmente consegue conciliar com o quotidiano de um treinador no ativo, nomeadamente trails, corrida e padel. Também passou a acompanhar mais de perto as duas filhas, tanto nas tarefas escolares como nas atividades extracurriculares, uma presença que considera fundamental.
As imagens das corridas que publica nas redes sociais mostram outra dimensão dessa rotina. Habitualmente, participa em corridas longas e trails de 32 quilómetros. Por volta dos 20, conta, começam a surgir pensamentos de que não conseguirá chegar ao fim. Ultrapassar essa fase implica enfrentar a dor e o cansaço.
Embora encare a modalidade apenas como um passatempo, encontra uma ligação evidente ao futebol de alta competição. Para atingir metas ambiciosas, considera indispensável suportar as dificuldades, ter força mental, ser resiliente e querer sempre ir mais longe. Entre risos, admite que o seu exemplo pode até servir de argumento quando pedir aos jogadores que corram mais.
Portugal à frente das propostas do estrangeiro
Neste período, recebeu algumas abordagens, sobretudo de fora do país. O treinador admite surpresa por ainda não ter sentido maior interesse do mercado português, depois de ter sido campeão da II Liga e conduzido o Marítimo à Liga.
O objetivo é consolidar-se como treinador principal em Portugal, um campeonato que valoriza pela exigência, pela visibilidade e pela qualidade dos jogadores. Não pretende voltar a emigrar tão cedo. Embora tenha sido contactado a partir do Médio Oriente, garante que a componente financeira não é, nesta altura, o fator decisivo.
Está disponível para trabalhar na II Liga, num projeto que lute pela promoção, ou na Primeira Liga, desde que encontre uma estrutura sustentada. Depois do título conquistado, gostaria de ter essas oportunidades no futebol nacional.
Equilíbrio, intensidade e adaptação
Ao descrever a sua identidade, Moita afasta posições radicais, no futebol como na vida. Procura equipas capazes de assumir o jogo, mas que estejam simultaneamente prontas para defender. Quer intensidade sem exposição a riscos excessivos, objetividade no ataque, boas dinâmicas pelos corredores e agressividade nas zonas de finalização.
O 4-3-3 é o sistema em que se sente mais confortável e aquele que considera mais simples de transmitir aos jogadores. Destaca a facilidade com que o meio-campo pode passar de uma disposição em 1-2 para outra em 2-1. Ainda assim, também aprecia bastante o 3-4-3, pela possibilidade de reforçar a pressão no meio-campo e colocar os extremos por dentro a fechar espaços.
Nesse contexto, recorda o Sporting de Ruben Amorim, uma equipa de que gostava particularmente. Entende que o modelo funciona muito bem quando existem jogadores adequados. Apesar das referências frequentes à linha de cinco, observa que o lateral de um dos lados atuava como extremo, fazendo com que essa linha acabasse por ter quatro elementos. Quando era necessário baixar o bloco, a equipa recuperava os cinco defensores.
Também vê qualidade nesse comportamento no FC Porto de Farioli, apontando o encontro com o Torreense na Supertaça como exemplo. Para Moita, uma equipa deve sentir-se confortável a defender perto da sua baliza quando o jogo o exige.
Foi o que procurou fazer no Marítimo, na temporada passada, quando vencia o Leiria por 2-1 e acrescentou um central nos últimos cinco minutos. Distingue, por isso, a identidade habitual de uma equipa das alterações pontuais durante uma partida, sempre condicionadas pelos jogadores disponíveis.
As dificuldades de entrar no circuito
Sobre o acesso ao grupo de treinadores que trabalham entre a Primeira e a Segunda Liga, considera que o caminho já foi mais difícil, embora continue longe de ser simples. No seu caso, entende que ter sido um jogador banal tornou o percurso mais complexo.
A afirmação de José Mourinho, André Villas-Boas e Leonardo Jardim ajudou, na sua perspetiva, a abrir portas a outros técnicos. Contudo, há muitos treinadores disponíveis, incluindo candidatos vindos de fora, e Moita sentiu essas dificuldades antes de chegar ao Marítimo.
O maior obstáculo, explica, está em conseguir falar com as pessoas certas e mostrar preparação. Mais do que favores, identifica redes de contactos privilegiadas que permitem chegar a conversas importantes, algo que encara com naturalidade.
Também sublinha a importância de os clubes saberem exatamente que perfil procuram. No Marítimo, encontrou critérios bem definidos. Considera essencial distinguir entre a necessidade de contratar alguém muito experiente e rígido ou alguém capaz de ser flexível sem abdicar da liderança.
A estreia como principal e o prazer de vencer
Ser campeão logo na primeira experiência como treinador principal não lhe trouxe necessariamente uma satisfação maior, mas admite que existia alguma pressão adicional, tanto externa como interna, por se tratar da estreia.
Ganhar, insiste, será sempre motivo de prazer, independentemente da fase da carreira. Já o sentia enquanto adjunto, porque é a vitória que move os treinadores. A esse propósito, recupera a ideia atribuída ao selecionador nacional Jorge Jesus de que, no final, o essencial é vencer.
Durante a época, procurou afastar qualquer sensação antecipada de que o título estava garantido. Acredita que aquilo que um treinador sente acaba por ser transmitido aos restantes elementos da equipa e influencia as emoções do grupo.
A competitividade da II Liga obrigava a essa cautela. O Marítimo podia bater o segundo ou o terceiro classificado e perder depois com o Feirense, como aconteceu. Quando ouvia discursos de maior confiança entre elementos da equipa técnica, do departamento médico ou do balneário, tentava contrariá-los para preservar a concentração.
Se houve um momento em que sentiu o objetivo mais próximo, foi talvez na partida anterior à receção ao Benfica B. O Marítimo venceu a Oliveirense em casa por 1-0, num encontro muito difícil, apesar de o adversário estar no último lugar. Esse resultado reforçou a perceção de que a meta estava perto.
O coletivo por trás dos golos
Carlos Daniel terminou a temporada como melhor marcador do Marítimo, com 11 golos, longe dos principais goleadores do campeonato. Para Moita, esse dado ajuda a perceber a força coletiva da equipa.
O treinador considera que o Marítimo foi o conjunto mais forte, embora reconheça superior qualidade individual em adversários como o Torreense e o Académico de Viseu. Na sua equipa, destaca sobretudo a concentração do grupo.
Carlos Daniel, utilizado como médio mais ofensivo, beneficiava do trabalho de Adrian Butzke, que prendia os centrais e criava espaços. O próprio Butzke viveu, segundo o técnico, a melhor época da carreira, marcou dez golos e teve uma intervenção determinante no funcionamento da equipa.
A evolução de Martin Tejón
Questionado sobre Martin Tejón, que continua em destaque no Marítimo depois da passagem pelo Valência, Moita recorda que o jogador já era presença habitual na equipa principal quando chegou. Faltavam-lhe, porém, maior produção e presença dentro da área.
Pediu-lhe mais agressividade nos movimentos sem bola e na chegada às zonas de finalização, características que considera essenciais num extremo. Ao mesmo tempo, encontrou um futebolista muito concentrado nos treinos e com uma intensidade assinalável.
Essa observação leva-o a elogiar a formação dos jogadores espanhóis com quem trabalhou, pela disciplina do método e pela capacidade de concentração, que acabam por influenciar os colegas. Ressalva, contudo, que isso não significa que os portugueses não revelem as mesmas qualidades.
Em Tejón, salienta a qualidade técnica e a leitura do jogo. Identifica margem de progressão no um contra um e na presença na área contrária, mas valoriza a capacidade de abrandar o ritmo e permitir que a equipa respire. Entende que essa característica será especialmente útil ao Marítimo na divisão principal.
A importância de conservar a base
O bom desempenho de Marítimo e Académico de Viseu, que mantiveram a base da época anterior, reforça uma convicção do treinador: quando um grupo tem uma dinâmica positiva, uma parte importante do trabalho já está feita.
Preservar essa ligação facilita a comunicação e a assimilação dos processos. Nas duas equipas, grande parte do onze habitual transitou da temporada passada. No caso do Marítimo, os reforços precisam de tempo para se adaptarem a uma realidade diferente.
Para quem treina, dispor de um núcleo consolidado representa estabilidade e permite apresentar qualidade de jogo de forma mais imediata. É uma questão que Moita considera merecedora da atenção de treinadores e dirigentes.
Uma saída sem arrependimento
Quanto à decisão de abandonar o Marítimo, mantém-se convicto de que fez a escolha certa. Explica que, quando não encontra a comunicação e a empatia que considera necessárias, deixa de fazer sentido continuar.
Apesar do apoio dos adeptos, que descreve como fantástico, e da ligação aos jogadores, sentia que faltava respaldo ao seu trabalho. Numa época em que a equipa chegou à liderança com margem, diminuiu os golos sofridos e perdeu muito poucas vezes, esperava maior apoio.
Foi depois do encontro com o Paços que sentiu essa ausência. Preferiu sair e procurar um clube que apostasse nele desde o início. Apresenta a separação como uma decisão consciente, assumida por ambas as partes, da qual não está arrependido.
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