Miguel Moita recorda aviso de Leonardo Jardim sobre as noites sem dormir

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Miguel Moita recorda aviso de Leonardo Jardim sobre as noites sem dormir

Do Chaves ao Al Rayyan, com etapas no Sporting, no Mónaco e no Al Hilal, Miguel Moita acompanhou Leonardo Jardim durante 16 anos. Na estreia como treinador principal, conquistou a II Liga portuguesa em 2025/26.

Atualmente sem treinar, o técnico falou em entrevista sobre a passagem pelo Marítimo, breve mas vitoriosa, que terminou por sua iniciativa. O percurso começou em 2007, quando fazia observação de adversários para o Chaves, então na terceira divisão nacional. Assumir o comando de uma equipa foi uma experiência em que se sentiu confortável, embora tenha confirmado o alerta de Jardim sobre as noites mal dormidas.

O treinador minhoto destaca o pragmatismo do método de trabalho de Leonardo Jardim, a autoridade de Luís Campos enquanto diretor desportivo e o percurso de Bernardo Silva, cujo desenvolvimento acompanhou no Mónaco.

A mudança de adjunto para treinador principal

Para Moita, a maior exposição é uma consequência incontornável da passagem a treinador principal. Tarefas de bastidores que antes encarava com maior descontração passaram a ocupar-lhe o quotidiano. A comunicação constante com futebolistas, jornalistas e adeptos representa também um desgaste acrescido.

Desligar do trabalho torna-se particularmente complicado para quem lidera uma equipa. Mesmo em casa, continua a pensar nas dinâmicas e nos posicionamentos mais adequados ou na mensagem a transmitir à comunicação social. Era uma realidade de que Leonardo Jardim lhe falava frequentemente.

Numa visita à Madeira, Jardim perguntou-lhe: «Então, já sabes o que são noites sem dormir a sério?» Moita recorda o episódio entre risos e reconhece que algumas noites passam muito depressa. Dar a cara nos momentos positivos e negativos implica outra responsabilidade, mas garante que se sentiu bem e confortável nessas funções.

Os primeiros passos ao lado de Leonardo Jardim

Na época 2007/2008, no Chaves, Moita acumulava a observação com o apoio à preparação física. Como as partidas da II B se disputavam ao domingo, deslocava-se aos campos para analisar os adversários, preparava relatórios e, durante a semana, participava nos treinos. A licenciatura em Educação Física permitia-lhe contribuir nessas diferentes áreas.

Descreve essa temporada como um período de grande aprendizagem junto de um treinador experiente e muito ambicioso. Jardim já tinha trabalhado em dois ou três clubes madeirenses e deixou a família na Madeira para apostar na carreira fora da ilha.

Moita guarda sobretudo a energia, a organização e a objetividade do treinador, numa abordagem sem romantismos. Considera que essas lições o acompanharão sempre.

A chegada ao Mónaco e o papel de Luís Campos

A entrada no Mónaco aconteceu em 2014/2015, depois de uma trajetória de crescimento que arrancou com duas subidas consecutivas, no Chaves e no Beira-Mar. Foram assumindo equipas com objetivos de progressão, num caminho que lhes abriu as portas ao trabalho com jogadores e dirigentes de dimensão mundial.

Entre esses profissionais, Moita destaca Luís Campos, que considera a pessoa mais competente que encontrou no cargo de diretor desportivo. Na sua perspetiva, essa função não pode limitar-se à presença nos períodos favoráveis nem depender apenas da rede de contactos.

Entende que cabe também ao diretor desportivo aliviar a pressão sobre o treinador quando alguém ultrapassa os limites, intervindo com firmeza e uma mensagem clara. Diz não ter voltado a encontrar alguém que o fizesse como Campos.

O contacto com Jardim e o trabalho no Flamengo

Os dois treinadores não conversam todos os dias, até porque ambos têm personalidades reservadas, mas preservam o contacto e o respeito. Moita esteve no Brasil há algum tempo, embora não tenha sido possível encontrar-se com Jardim. Falam nos aniversários e em poucas outras ocasiões.

Ainda assim, acompanha com satisfação o percurso do antigo companheiro no Flamengo. Reconhece que a adaptação ao futebol brasileiro é difícil e que nem tudo correu bem de início, mas considera que o período de trabalho intensivo realizado em Portugal ajudou a consolidar ideias.

Sublinha igualmente a importância de gerir as diferentes competições no Brasil, onde, segundo explica, só os jogadores menos utilizados conseguem treinar. Antecipa uma disputa do campeonato a dois, que considera muito interessante de seguir.

Uma metodologia pragmática e flexível

Moita caracteriza o método de Jardim como pragmático e claramente definido. Destaca a flexibilidade na escolha dos sistemas, em contraste com técnicos que permanecem ligados a uma estrutura fixa. O treinador madeirense ajusta a organização tática aos jogadores disponíveis e ao adversário, passando de um modelo para outro sem dificuldades.

Nos treinos, não precisa de substituir constantemente os exercícios: altera sobretudo pequenos aspetos. Ao mesmo tempo, evita o risco, não aprecia jogar com a linha de fora de jogo nem ver futebolistas de braços levantados. Moita levou também essa preocupação para o seu trabalho no Marítimo.

Outra qualidade que assinala é a organização de equipas capazes de sair rapidamente em transição e atacar a profundidade. Considera que os conjuntos de Jardim são mais fortes nesses momentos do que em ataque posicional. Quando o adversário deixa espaço nas costas, encontram condições especialmente favoráveis para tirar partido dessas características.

A experiência no Médio Oriente antes da chegada de Ronaldo

Moita acompanhou também Jardim no Médio Oriente e foi campeão no Al-Hilal antes da chegada de Cristiano Ronaldo à Arábia Saudita. Na sua leitura, a contratação do internacional português projetou o campeonato saudita para uma escala mundial.

Aponta como exemplo a transmissão da prova pela Sport TV, em Portugal, e lembra que, posteriormente, aumentou o número de estrangeiros autorizados na competição. Durante a sua passagem, tinham cerca de sete ou oito futebolistas estrangeiros, mas apenas quatro podiam jogar no campeonato. Os restantes só eram opção nas provas asiáticas.

Isso obrigava a deixar jogadores de fora das competições internas, apesar da qualidade que acrescentavam em comparação com os atletas locais. No caso do Al-Hilal, recorda que o plantel reunia os melhores jogadores sauditas, incluindo muitos internacionais e jovens promissores.

A cultura como ponto de partida

A principal aprendizagem que retirou do Médio Oriente foi a de que a cultura se sobrepõe à tática e aos restantes aspetos do trabalho. Chegar com a intenção de impor todas as ideias, sem margem para adaptação, não resulta, defende.

É necessário respeitar hábitos enraizados, como os períodos de oração e os horários de treino preferidos. Marcar sessões de manhã, por exemplo, não encontrava a mesma disponibilidade dos jogadores. Admite que a realidade possa ter mudado com a entrada de mais estrangeiros, mas mantém que a flexibilidade é indispensável.

Associa precisamente essa capacidade de adaptação ao reconhecimento internacional dos treinadores portugueses. Para Moita, a experiência foi enriquecedora tanto por essa aprendizagem como pela participação no desenvolvimento de jogadores sauditas, entre os quais Al-Dawsari e Al-Bulaihi.

Lembra que Al-Dawsari, autor do célebre golo diante da Argentina no Mundial, continua a ser titular no Al-Hilal, tem um estatuto muito elevado e permanece uma referência da seleção.

A conquista da Liga dos Campeões asiática

Leonardo Jardim é o único treinador português que venceu a Champions asiática. Moita considera essa conquista pelo Al-Hilal um momento marcante e lembra que outros técnicos de prestígio passaram pelo clube sem alcançar o troféu.

Refere o caso de Jorge Jesus, que esteve perto de o conseguir, mas perdeu a final frente ao Al Ain.

Um campeonato que exige compromisso

Perante exemplos como Gabri Veiga e a fase recente de João Félix, que contrariam a ideia de que a Arábia Saudita é apenas um destino de fim de carreira, Moita considera que o contexto mudou.

A abertura ao mercado internacional e a entrada de mais jogadores de topo aumentam necessariamente a competitividade e a exigência sobre os futebolistas locais. Estes passam a disputar espaço com profissionais habituados às grandes ligas.

Embora não coloque o campeonato saudita ao nível da Premier League, da Liga espanhola ou da Liga portuguesa, entende que a evolução foi significativa. Há administrações exigentes e adeptos fervorosos, pelo que rejeita a ideia de que se possa ir para lá apenas passear ou viver como se estivesse de férias.

São necessários rigor profissional e capacidade para acrescentar valor. Na sua avaliação, a mudança foi uma decisão acertada para melhorar a competitividade da prova e elevar também o nível da seleção saudita.

O impacto de Mbappé no Mónaco

Questionado sobre o facto de Mbappé, cujo crescimento acompanhou no Mónaco em 2016/2017, chegar a 2026 sem uma Bola de Ouro ou uma Liga dos Campeões, Moita diz não ficar surpreendido. Explica que tanto o rendimento desportivo como as escolhas individuais dependem de numerosas variáveis.

A impressão deixada pelo avançado no primeiro treino foi, contudo, imediata. A equipa técnica percebeu que estava perante um jogador superior aos restantes. Sem medo de enfrentar Ricardo Carvalho, Mbappé procurava o duelo e fazia golos com facilidade, revelando qualidades diferentes.

Apesar disso, Moita evita atribuir desde logo a um jovem o rótulo de futura estrela mundial. Lembra que os fatores mentais e o contexto podem mudar uma carreira e que os prémios individuais não dependem exclusivamente da qualidade de um futebolista.

Durante a afirmação de Mbappé, havia também outras grandes figuras no topo do futebol. Para o treinador, o essencial é que o avançado continue concentrado no seu trabalho. Considera que o caminho percorrido lhe permitiu amadurecer e ganhar consistência para conquistar esses troféus no futuro.

A adaptação e o crescimento de Bernardo Silva

No Mónaco, Moita trabalhou igualmente com Bernardo Silva, contratado ao Benfica como uma jovem promessa por 15 milhões de euros. Recorda que, quando a equipa técnica chegou, o projeto previa inicialmente um investimento megalómano.

Poucas semanas depois, questões pessoais do presidente levaram a uma alteração radical de rumo. A aposta passou a recair em jovens ainda sem afirmação no topo europeu, identificados através de um trabalho de prospeção liderado por Luís Campos.

Bernardo vinha da formação benfiquista, sem provas dadas na primeira liga portuguesa, e encontrou em França um futebol bastante mais físico. A adaptação inicial foi exigente, mas a sua inteligência no jogo tornou-se evidente desde cedo.

Mais do que a rapidez de deslocação, sobressaíam a velocidade com que interpretava as situações, a capacidade para guardar a bola e dar pausa ao jogo, além de uma resistência física impressionante. Na Liga dos Campeões, era muitas vezes o futebolista da equipa que percorria mais quilómetros.

Moita destaca ainda a disponibilidade para esforços de elevada intensidade, a recuperação de bola e as mudanças de direção. E atribui a Jardim uma gestão exemplar desse crescimento, evitando expor o jogador demasiado cedo.

Essa progressão ajudou a equipa a atingir o seu ponto de explosão na terceira temporada. A afirmação de jovens como Mbappé, Bernardo Silva, Lemar e Fabinho juntou-se à experiência de Falcão, de regresso, e ao contributo de Bakayoko no meio-campo. João Moutinho chegou a ser suplente em algumas ocasiões.

Nos primeiros anos, Moita realizou frequentemente trabalho individual com Bernardo. Descreve-o como um jogador de enorme inteligência na ocupação dos espaços, capaz de controlar os ritmos e de dar volume ao ataque, quer jogue na ala, por dentro ou em zonas mais recuadas.

A evolução para posições interiores

A utilização atual de Bernardo Silva mais no meio-campo do que na ala direita é, para Moita, uma transformação natural do seu perfil. Recorda que jogar no corredor lateral exige grande esforço defensivo e muita intensidade nas deslocações constantes entre ataque e defesa.

Com a passagem dos anos, os futebolistas acumulam experiência e melhoram a leitura das situações, mas perdem alguma capacidade fisiológica para repetir esforços máximos com pouco tempo de intervalo. O treinador sublinha que se trata de um processo normal, comum a todos os jogadores de elite.

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