Pedro Justo, o En9rme: um guarda-redes com o 9 eternizado no estádio da Sanjoanense

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Pedro Justo, o En9rme: um guarda-redes com o 9 eternizado no estádio da Sanjoanense

Faltava cerca de hora e meia para o Sanjoanense-Nacional quando Pedro Justo antecipou a possibilidade de uma surpresa. «Algo me diz que a Sanjoanense poderá passar esta eliminatória. Acredito que possa haver a festa da taça.» O desfecho acabaria por dar razão à intuição deste guarda-redes irreverente, cuja personalidade o fez crescer para lá da baliza. Tornou-o enorme. Ou, mais precisamente, o En9rme. Vale a pena conhecer a história de Pedro Justo.

O primeiro encontro com Pepa, em 2013, quando o treinador chegou à Sanjoanense, esteve longe de o favorecer. «Vi um rapaz gordinho, “quase sem braços” a jogar à frente e perguntei quem era. Disseram-me: é o teu guarda-redes. Pensei que estivessem a brincar», recordou o técnico.

Justo confirma a cena, entre risos. Tratava-se de um jogo de futebol de sete, daqueles em que gostava de ocupar uma posição mais adiantada, já com o número 9 nas costas. Quando lhe apontaram o guarda-redes, Pepa reagiu com incredulidade perante aquele jogador baixo e mais pesado. A desconfiança inicial demorou uma semana a desaparecer. «Consegui-o sendo eu próprio, deixando rolar as coisas. Consegui tocá-lo verdadeiramente pela minha forma de ser e pela paixão que tenho pelo futebol e a Sanjoanense.»

A boa disposição e a ausência de complexos fizeram dele uma das figuras do futebol de Aveiro. Soma já quase 500 partidas, um patamar que pretende atingir nesta temporada, muito provavelmente a última da carreira, agora ao serviço da equipa B da Sanjoanense.

Aos 43 anos, leva muitos de baliza e uma alcunha construída nos treinos. Para se entusiasmar e provocar os companheiros, garantia-lhes que não conseguiriam marcar-lhe: era um gigante, um monstro, era enorme. A palavra começou a agradar-lhe e, como usava o 9 há bastante tempo, encontrou uma maneira de juntar as duas coisas: substituir o «O» pelo algarismo. «As pessoas gostavam, eu autointitulava-me assim e ficou».

Estava criado Justo, o En9rme, o excêntrico guarda-redes que escolheu um número habitualmente associado aos goleadores. A camisola 9, pouco comum entre os postes, tem três explicações.

A primeira passa pelo seu único ídolo no futebol, Vítor Baía, que considera o melhor guarda-redes de sempre. «Ele era o 99 e, se eu acho que sou o segundo melhor, se tirarmos um 9 fica o outro.» A segunda prende-se com a confiança que sempre teve na qualidade do seu jogo de pés: gostava de marcar nos torneios de futebol de salão e o jogador mais adiantado costuma usar o 9. Por fim, havia a admiração por Ronaldo, o Fenómeno, que, como explica, sempre jogou com esse número.

Para quem nunca escondeu o gosto por «marcar pela diferença», a escolha fazia todo o sentido. Justo questionava por que razão, havendo números de 1 a 99, um guarda-redes teria de optar pelo 1, pelo 12 ou pelo 24. «Não senhor, sou o 9. E isso chama logo a atenção». Nesse ponto, é difícil discordar dele.

A facilidade de comunicação e o gosto pelas histórias rapidamente se tornam evidentes. Pepa, depois das reservas iniciais, ficou rendido. «Revelou-se um excelente capitão de equipa, motivador e com boa performance desportiva», elogiou o treinador. Em 2014, com o En9rme na baliza, conquistou o campeonato de Aveiro e a Supertaça distrital. Esta última decidiu-se nos penáltis, com Justo a travar dois remates, «inclusive o último», faz questão de sublinhar.

A memória dessa conquista ganhou lugar num mural junto ao acesso aos balneários do Estádio Conde Dias Garcia, a casa da Sanjoanense. A pintura perpetua a equipa campeã e o instante em que ergueu a taça. Para Justo, saber que os jogadores do Nacional iriam encontrar aquela imagem à chegada era motivo de orgulho: entre os jogadores, destaca-se uma camisola de cor diferente, a do guarda-redes, com o número 9. É ele, a levantar o troféu. Se a imagem teve algum peso naquela tarde, isso fica no domínio dos mistérios do futebol.

«Esses foram os dois últimos troféus que a Sanjoanense conquistou no futebol sénior. E eu era o capitão da equipa», lembra. Do treinador guarda a ideia de alguém «fora da caixa», cujo potencial já era reconhecido naquela altura. «Pode parecer fácil dizer isto agora, mas já na altura prevíamos que havia algo de magnífico nele», acrescenta sobre Pepa.

Passada mais de uma década, Justo escolheu regressar à Sanjoanense. Quer colocar a experiência ao serviço dos jovens da equipa B, que compete no segundo escalão de Aveiro. A diferença de idades serve-lhe, naturalmente, para mais uma brincadeira: «Podiam todos ser meus filhos».

Apesar da ligação ao clube e da previsão que fizera antes da partida, não assistiu ao feito da Sanjoanense diante do Nacional, na Taça. Tinha um compromisso que não podia adiar. «Vou estar com as minhas filhas, já lhes tinha prometido. Não posso falhar, elas estão sempre acima.»

Para o guarda-redes, «não havia melhor sítio para terminar» um percurso longo, que descreve como «bem melhor do que o que seria previsto dada a minha fisionomia». O regresso permite-lhe, assim, aproximar-se da despedida num lugar especial.

Às limitações físicas respondeu com outras qualidades. Foi «muito comunicativo, se calhar até levando ao exagero», e apoiou-se num excelente jogo de pés, na rapidez e na agilidade. Também reconhece, porém, os aspetos em que sentia maiores dificuldades. «Tudo o que fosse cruzamentos era sempre mais complicado, resguardava-me mais. A minha fisionomia não me permitia estar entre os gigantes. Fiquei-me pelo enorme», diz, novamente em tom de brincadeira.

Falta saber quantos golos conseguiu um guarda-redes tão ligado ao número 9. A resposta é um, marcado pelo Milheiroense numa partida do distrital de Aveiro, há uns 15 anos. Foi de penálti e deu-lhe mais um argumento para as conversas: «Costumo dizer, em tom de brincadeira, que sou um dos poucos jogadores FIFA que tem 100 por cento de eficácia em penáltis, também porque só marquei um.» Até um único golo dá a Pedro Justo matéria para mais uma boa história.

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