Alcochete entre sonhos e memórias numa tarde em que a Taça manteve o encanto

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Alcochete entre sonhos e memórias numa tarde em que a Taça manteve o encanto

À entrada do Snack-bar 7, restaurante encostado ao Estádio do Alcochetense, percebia-se logo que aquele não seria um dia tranquilo. A fila crescia e, no interior, João desdobrava-se junto ao grelhador. Entre o peixe e as febras, sobrava-lhe pouco tempo para falar.

«Ao domingo é sempre assim, mas hoje está pior», comenta, a rir.

O início da partida estava ainda a cerca de duas horas de distância, mas já muita gente aguardava na bilheteira. À procura da entrada, encontro Filipe na secretaria. Depois, de volta ao exterior, começo a cumprir o propósito da visita a Alcochete: ouvir quem sente o clube numa ocasião de festa.

Júlio ainda precisa de comprar bilhete. Para antecipar o desfecho do encontro, porém, não tem qualquer dúvida.

— Vai eliminar o Marítimo?

— Claro.

O entusiasmo quase faz esquecer os três escalões que separam os dois adversários. Pergunto-lhe se acredita numa repetição de 2011, quando a União de Leiria caiu diante do Alcochetense. Não assistiu a esse encontro, mas conhece bem o episódio. Agora, deseja outro semelhante.

«É mandar o Marítimo para a Madeira. Vai, vai-te embora. Vai com Deus», conclui, divertido.

Um pouco mais atrás, outro senhor já projeta a eliminatória seguinte e uma visita do Benfica. A conversa muda imediatamente de escala. «Depois levam o Benfica», diz, acompanhando as palavras com um gesto de dinheiro. Receber um dos grandes desperta entusiasmo e leva também a pensar no impacto que essa possibilidade teria nas finanças do clube.

Quando lhe peço nomes para os golos, Júlio é mais prudente. Prevê uma vitória por 2-0, mas não arrisca os marcadores. «Sou de cá, mas já nem conheço ninguém.» Antes da despedida, ainda dirige um apelo ao árbitro: que tenha atenção também «um bocadinho para o mais pequenino».

A partida da Taça ainda não começou, mas já há resultado previsto, adversário escolhido para a ronda seguinte e uma mensagem destinada à arbitragem.

Entretanto, o autocarro do Marítimo aproxima-se. Mal os jogadores começam a sair, os jovens da formação do Alcochetense correm na sua direção. Com as cores do clube vestidas, pedem fotografias e procuram aproveitar a presença dos futebolistas chegados da Madeira.

Entre sorrisos, não deixam passar a oportunidade de os desafiar: «Vamos ganhar 2-0!»

A cena convida ao sorriso. Querem guardar fotografias com os adversários, mas fazem questão de lhes mostrar que a passagem por Alcochete não será facilitada. Aos olhos destes miúdos, o caminho entre o Campeonato de Portugal e a Primeira Liga parece bastante menor do que aquele que as classificações sugerem.

Tiago, jogador dos sub-15, também vê espaço para uma surpresa. Recorda a eliminação do Nacional no dia anterior e fala do triunfo sobre a União de Leiria, uma história que lhe chegou através de outros. Em 2011 não estava cá, mas gostaria de assistir agora a algo parecido.

«Era espetacular. Era ótimo», responde, quando lhe pergunto se queria ver o Alcochetense afastar novamente um adversário de um escalão acima.

É uma resposta natural. A Taça também vive disto: de oferecer aos mais novos histórias que poderão levar consigo e contar no futuro.

Junto à bilheteira, as recordações têm lugar sentado. Os senhores Pires e António contam mais de 40 anos como sócios do Alcochetense. À pergunta sobre se são adeptos do clube, respondem prontamente.

«Desde sempre.»

Não demora muito até regressarmos à eliminatória com a União de Leiria, em 2011. A memória de um é mais nítida do que a do outro, mas nenhum desconhece a importância daquele encontro. Ao intervalo, o Alcochetense perdia por 0-1. Na segunda parte, virou o resultado e ganhou por 2-1, graças aos golos de Djão e Luís Costa, com este último a marcar já perto do fim.

Joaquim Pires acrescenta um episódio que o marcador não conta: terminado o jogo, Manuel Cajuda, então treinador da União de Leiria, terá visitado o balneário do Alcochetense para felicitar jogadores e equipa técnica. Depois de afastar uma formação da Primeira Liga, a equipa de um escalão inferior teria recebido o reconhecimento do técnico adversário.

«A Taça de Portugal é uma festa do futebol», afirma. Desenvolve o raciocínio com a familiaridade de quem já o partilhou muitas vezes, sem perder a vontade de o repetir. Por vezes, explica, «os fatores psicológicos pesam mais do que se imagina. Uma equipa cresce, ganha confiança e, de repente, a diferença entre os dois clubes parece desaparecer».

É nesse cenário que deposita a esperança para a receção ao Marítimo, sem deixar de reconhecer a realidade. «São onze contra onze e vamos crer que podemos ganhar. E, se perdermos, cabeça levantada. Temos é de lutar pelo nosso campeonato.»

Das memórias de 2011, passamos a um passado mais distante, recuando meio século. Este ano cumprem-se precisamente 50 anos sobre os jogos entre Alcochetense e Marítimo na II Divisão, Zona Sul. Pires recorda uma equipa local composta quase exclusivamente por futebolistas da terra, muitos com formação no clube.

«Naquele tempo, dentro do balneário do Alcochetense, respirava-se Alcochete», acrescenta António.

Lembra amigos que cresciam lado a lado, percorriam os escalões jovens e acabavam por chegar aos seniores. «Era o querer, a raça, que por vezes ganhavam jogos sem explicação. Porque tinham vontade.»

A evocação não pretende diminuir o futebol atual. «São outras épocas, é a lei natural da evolução», ressalva. Ainda assim, fica claro que a proximidade entre a vila e os seus jogadores é uma parte da história que faz questão de manter viva.

Para André Geraldes, CEO do Alcochetense, a jornada tem outro significado. A visita do Marítimo representa um momento especial para os adeptos, mas deve servir igualmente o trabalho de quem procura desenvolver um projeto profissional.

Fundado em 1937, o clube atravessou anos de estagnação e tenta agora reorganizar-se. Pretende profissionalizar a estrutura e tirar partido da proximidade de Alcochete a Lisboa para abrir novas perspetivas ao projeto.

«Estes jogos têm de ser a nossa normalidade», defende Geraldes. Fala da organização, da operação e dos meios necessários para acolher partidas desta dimensão. Reconhece o respeito devido ao adversário, mas sublinha a vontade de preparar o clube para que dias assim deixem de representar uma exceção.

Dentro do campo, o discurso passa por outro plano. «Vamos entrar no jogo para ganhar, sabendo que as diferenças existem», afirma. Deixa também uma mensagem de confiança em António Pereira, treinador que descreve como um histórico do futebol português.

Há ambição, mas também consciência das dificuldades. Entre as equipas existem três escalões, diferentes orçamentos e rotinas competitivas distintas. Mesmo assim, em Alcochete ninguém parece querer ocupar a tarde apenas com essas diferenças.

Entre os visitantes, João e Luís encaram o dia com maior descontração. Acompanham o Marítimo fora de casa e encontram na Taça uma oportunidade para combinar o apoio à equipa com o convívio.

«A Taça é a Taça, pode haver surpresas», observam, evocando a eliminação do Nacional na véspera. Não esquecem, contudo, a componente mais prática da deslocação.

«O pessoal quer vir beber copos e ver a bola. Se houver jola à venda no estádio, tanto melhor», ouve-se na conversa.

Não há grandes análises táticas nem contas sobre probabilidades. Vieram, naturalmente, pelo Marítimo, mas querem também desfrutar do passeio. É uma das particularidades destas viagens: o jogo que para alguns pode entrar na história é, para outros, uma boa maneira de passar o domingo.

Com a bola em movimento, é o Marítimo quem garante a continuidade na prova. Ainda assim, o golo de Precatado basta para encher os minutos finais de esperança e festa. Durante esse período, a distância entre divisões parece deixar de importar.

Depois do encontro, reencontro João e Luís. Estão agora à mesa com Joaquim, o sócio do Alcochetense com quem conversara antes da partida. Entre as minis espalhadas pela mesa, o diálogo prossegue, já com o desfecho conhecido.

«Se eu fosse do Marítimo, o pensamento era pensar no próximo adversário da Taça de Portugal, para chegar à final. Porque dava uma certa alegria. É um clube histórico do nosso campeonato», comenta o adepto da casa.

Luís confessa que nem todos os minutos foram tranquilos. «Tive meio amarelo», brinca, antes de elogiar a exibição do Alcochetense. «Acho que têm uma boa equipa. E fomos muito bem recebidos», acrescenta.

O sol vai descendo no horizonte e a jornada aproxima-se do fim. Antes de partir, volto a encontrar Filipe, o jovem que me acolhera na secretaria. Entretanto, fico a saber que é assessor de comunicação e fotógrafo, dá uma mão nas contas do bar e reúne, nas suas palavras, «mais de sete ofícios».

A disponibilidade mantém-se, tal como a hospitalidade com que me recebeu. É talvez uma das imagens que melhor resume esta tarde: num clube empenhado em profissionalizar-se, continua a haver quem assuma um pouco de tudo; numa vila que voltou a desejar uma surpresa, não faltam pessoas prontas a partilhar as suas histórias.

A qualificação segue com o Marítimo. Alcochete guarda as memórias, o convívio e a sensação de que acreditar valeu a pena, pelo menos durante uma tarde. Não houve repetição do feito de 2011, mas a Taça deixou à vila mais um dia para recordar.

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