Baby Suicida dedicam hino a Tozé Marreco, símbolo da subida do Tondela em 2015
No verão de 2015, na Figueira da Foz, os visitantes vindos da Beira Alta distinguiam-se pela animação. A região celebrava um acontecimento inédito no século XXI: a promoção do Tondela à Liga. Entre os cânticos pela conquista da II Liga, sobressaíam os dedicados a um avançado nascido em Miranda do Corvo que, poucos meses antes, estava afastado dos holofotes.
António José Marreco Gouveia, conhecido como Tozé Marreco, marcou 25 golos em 51 partidas pelo Tondela em 2014/15. Foi a época mais conseguida de uma carreira construída em Portugal, mas que também passou por Espanha, Países Baixos, Bulgária, Bélgica e Suíça.
Depois dos golos e dos momentos que ficaram na memória, o antigo avançado tornou-se treinador. No verão de 2022, voltou a Tondela com o objetivo de levar novamente o clube à Liga. Não conseguiu e deixou o cargo em abril de 2024, seguindo-se uma breve passagem pelo Gil Vicente. A ligação afetiva aos beirões, essa, permaneceu.
«Tozé Marreco, O golo é certo, Tozé, Tozé; Tozé Marreco, O longe é perto, Não percas a fé»
O primeiro esboço deste refrão nasceu há um ano, pela mão de João Sanches, engenheiro informático de Mangualde, no distrito de Viseu, que vive em Lisboa há 11 anos. As recordações de Marreco regressaram na primavera de 2025, após ter visto um encontro do Farense numa esplanada lisboeta.
«Na flash, depois do jogo, apareceu o Tozé. Foi motivo para uma conversa de jantar, de boas memórias. O Tondela subiu e eu vivi o último verão enquanto residente em Mangualde. Depois dos exames fui uma semana para a Figueira da Foz e a malta de Tondela estava muito feliz. O Tozé Marreco era a personificação do sucesso», recorda.
A saudade de Mangualde e da Beira Alta deu a João Sanches vontade de fixar em música as emoções anteriores à universidade, os sonhos adolescentes e a inquietação de um jovem que se mudara para Lisboa. Organizou as ideias e procurou Francisco Fernandes e Francisco Castro, os amigos com quem criou os Baby Suicida.
«Só te vai esquecer, Quem não colher, Febre Amarela, Vida é pra perder, É a viver, Que a morte é bela»
João Sanches e Francisco Castro, gestor de dados nascido em Lisboa, já tinham partilhado outras experiências. Reencontraram-se musicalmente em 2024 e, no início de 2025, fundaram os Baby Suicida com Francisco Fernandes, lisboeta ligado ao rock e mestrando em Gestão e Estratégia Industrial.
A designação da banda vem de uma canção de Adelaide Ferreira. A intenção é «homenagear e recuperar traços da música popular portuguesa», dando-lhes uma expressão moderna e contagiante. Donzela Diesel, título de um tema de Rui Veloso, foi a outra hipótese considerada para o nome do grupo.
Com 11 canções no reportório, o trio encontrou no tema apresentado na terça-feira o seu trabalho mais exigente. A composição nasceu como fado, antes de se transformar numa marcha, sem alegria excessiva nem um tom demasiado fúnebre.
À primeira audição, sugere uma romaria ao som de uma filarmónica, num cenário que poderia pertencer ao teatro de revista ou a um filme com Vasco Santana, António Silva, Francisco Ribeiro e Beatriz Costa.
«É o nosso tema mais orquestrado – de longe. Até envolve tubas! Foi complicado unir todas as peças, para que não fosse só ruído. Incluímos uma parte mais melancólica, além de relatos dos jogos, apitos e aplausos. O futebol é a premissa, mas o tema remete para a nostalgia da música tradicional e popular», explicam os Baby Suicida.
Foram utilizados 15 instrumentos na produção deste hino, entre os quais tuba, cavaquinho, acordeão, adufe, flauta, contrabaixo, guitarra e teclado. O trabalho demorou um ano a ficar concluído e foi gravado no quarto de Francisco Castro.
«Tozé, Um cavalo-vapor, Vaso-dilatador, Timona do navio; Tozé, Perder até é fixe, Ninguém ouviu cantar, De outro Marrekóvic»
“Cantiga de Beira”, “Santa Companha” e “As Mães de Bragança” são, segundo a banda, canções próximas da sonoridade da nova faixa. Já “Café com Cheirinho” chama a atenção pela presença de Eusébio na capa. A imagem escolhida para a marcha de Tozé Marreco tem um significado ainda mais pessoal, remetendo para a infância de João Sanches.
«Trata-se de um frame de um vídeo. Quando jogava futebol no Mangualde, o meu pai gravava alguns jogos. Esta imagem representa essa nostalgia e recupera um ambiente preenchido pelos sonhos. E falávamos do Tozé Marreco no balneário.»
«Clubes como Tondela, Académico de Viseu ou Arouca subirem à Liga permite colocar as cidades e as regiões no mapa. Enquanto vivi em Mangualde sentia-me distante das oportunidades e dos sonhos. A promoção do Tondela foi um momento de alento. Todas essas sensações estão nesta música», acrescenta Sanches, que assume a voz no tema dedicado a Tozé Marreco.
Entre as exigências das respetivas profissões, os Baby Suicida querem apresentar mais canções até ao fim do ano, eventualmente destinadas a um primeiro EP ou álbum. O trio pretende também voltar aos palcos e entrar na agenda nacional.
Convidado a comentar a canção que o homenageia, Tozé Marreco deixou uma mensagem à banda. Aos 39 anos, o treinador está a viver a primeira experiência no estrangeiro, no comando do Stade Tunisien.
«Agradeço muito esta lembrança. Espero que tenham o sucesso merecido, porque é uma grande música. Pena não ter saído antes do verão, porque dava para bailes e marchas. A história em Tondela teve sempre capítulos felizes, como jogador e treinador.»
«É uma história que fica imortalizada com esta música», afirmou o técnico.
Na temporada em que Tozé Marreco apontou 23 golos em 46 jornadas, o Tondela venceu a II Liga com 81 pontos, mais um do que União da Madeira, Desp. Chaves e Sp. Covilhã. Uma promoção sem precedentes que passa agora a ter um hino indie-tradicional.
A romaria continua!
«Tozé Marreco, O golo é certo, Tozé, Tozé; Tozé Marreco, O longe é perto, Não percas a fé»
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