Cristiano Ronaldo: uma carreira marcada por conflitos com selecionadores

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Cristiano Ronaldo: uma carreira marcada por conflitos com selecionadores

Será uma coincidência, mas o percurso de Cristiano Ronaldo na Seleção apresenta um dado curioso: trabalhou com seis selecionadores portugueses e só com dois a relação não acabou mal, Luiz Felipe Scolari e Roberto Martínez.

Nos restantes casos, o final da ligação ficou marcado por desentendimentos e tensão.

As circunstâncias, contudo, não foram iguais. Carlos Queiroz e Paulo Bento continuaram em funções depois de Mundiais pouco conseguidos e ainda orientaram Portugal no arranque do apuramento seguinte para o Europeu.

Ronaldo falhou esses encontros, invocando problemas físicos em ambas as situações. Os dois técnicos deixaram o cargo depois desses primeiros jogos, sempre em setembro. A mudança de selecionador coincidiu com o regresso do capitão.

Com Fernando Santos, o desfecho ocorreu logo após o Mundial, antes de começar outro apuramento. O treinador não foi despedido: acordou a rescisão do contrato e deixou a Federação em bons termos.

O episódio com Jorge Jesus teve contornos distintos. O conflito não surgiu num Mundial, mas no início de uma nova etapa da Seleção Nacional, e agravou-se depressa. Dois jogos foram suficientes para provocar a rutura.

Nos três primeiros episódios, foram os selecionadores a sair da Seleção Nacional. Com Jorge Jesus aconteceu o contrário: quem saiu foi Ronaldo. Pelo menos, é essa a informação conhecida até agora.

Quando foi necessário encontrar o sucessor de Luiz Felipe Scolari, a proximidade entre Carlos Queiroz e Cristiano Ronaldo, então detentor do título de melhor jogador do mundo, contou a favor do treinador.

Enquanto adjunto de Alex Ferguson no Manchester United, Queiroz acompanhara o crescimento do extremo durante vários anos. Assumiu um papel de mentor, protegeu-o, ajudou-o a evoluir e influenciou até a forma como Ferguson o via.

«Vamos fazer um acordo. Tu nasceste para ser o melhor jogador do mundo. Se estiveres disposto a trabalhar para seres o melhor do mundo, estou disposto a trabalhar contigo. Há um preço a pagar na vida quando se quer ter sucesso. Vai para casa, pensa e amanhã conversamos e começamos um novo dia de trabalho», disse-lhe Carlos Queiroz depois de um treino menos conseguido em Manchester, conforme contou numa entrevista ao El País.

Perante esse passado, dificilmente se anteciparia o desfecho da relação. No Mundial 2010, na África do Sul, Queiroz manteve a defesa de Ronaldo, que passava por dificuldades na finalização e terminou a prova com apenas um golo.

O capitão, porém, nem sempre concordava com as opções do técnico e foi revelando descontentamento com o futebol da equipa portuguesa. Nos oitavos de final, diante de Espanha, a tensão tornou-se mais clara. Já com Portugal a perder por 1-0, contestou a entrada de Danny para o lugar de Hugo Almeida. «Assim não ganhamos, Carlos», atirou.

Portugal acabou mesmo sem vencer. Depois do encontro, quando atravessava a zona mista, perguntaram-lhe como explicava a eliminação. A resposta foi curta: «Fala com o Carlos Queiroz».

Queiroz ainda era selecionador no início da qualificação para o Euro 2012, embora estivesse impedido de se sentar no banco por castigo. Ronaldo constou da convocatória inicial, mas uma lesão sofrida no último encontro antes da pausa para as seleções afastou-o do empate em casa com o Chipre e da derrota na Dinamarca. Quaresma ocupou a sua vaga.

Seguiu-se o despedimento de Queiroz, a contratação de Paulo Bento e o regresso de Ronaldo. O jogador não voltou, contudo, a trocar palavras com o antigo mentor. Quando se encontraram no Portugal-Irão do Mundial 2018, nem um cumprimento houve.

A ligação a Paulo Bento começou da melhor maneira. O treinador conseguiu aproveitar as qualidades do avançado do Real Madrid e recebeu golos como resposta. No Euro 2012, Ronaldo marcou três vezes e teve um papel decisivo no percurso de Portugal até às meias-finais.

Também se destacou na qualificação para o Mundial 2014. O momento maior foi a vitória em Solna, no play-off, quando marcou os três golos do triunfo no terreno da Suécia de Ibrahimovic. Foi determinante para levar Portugal ao Brasil.

A participação no Mundial 2014, por outro lado, correu muito mal.

A Seleção ficou pela fase de grupos, perante Alemanha, Estados Unidos e Gana. Ronaldo despediu-se do Brasil novamente com um único golo.

À semelhança do que sucedera quatro anos antes, a relação entre capitão e selecionador ficou bastante fragilizada. As decisões de Paulo Bento eram alvo de contestação, sobretudo pela demora numa renovação que lhe era exigida. Ronaldo, por seu lado, não queria atuar como ponta de lança: preferia manter o papel que desempenhava no Real Madrid, partindo de uma ala e dispondo de liberdade para aparecer nas zonas de finalização.

Paulo Bento explicou que nunca pensara em utilizar Ronaldo como único ponta de lança de início, por considerar que essa não seria a melhor solução para o rendimento do jogador ou da Seleção. Acrescentou que nem fora necessário o capitão transmitir-lhe essa ideia.

No primeiro compromisso depois do Mundial, que abriu o apuramento para o Euro 2016, Ronaldo voltou a ficar de fora. Portugal perdeu em casa diante da Albânia.

O avançado tinha jogado no fim de semana anterior à pausa internacional e retomou o treino com bola dois dias depois do encontro com os albaneses. Ancelotti afirmou que não existia qualquer lesão, apenas queixas físicas, alimentando as dúvidas em torno da ausência.

Paulo Bento foi despedido após essa derrota. Questionado sobre a possibilidade de Ronaldo ter pesado na decisão da Federação, respondeu:

«Se me pergunta se houve alguma situação diretamente comigo, digo-lhe que não. Se confrontou os dirigentes é uma situação em que não quero acreditar. Invertiam-se os papéis, e numa hierarquia isso era virá-la do avesso. Não seria bom para mim, para o jogador ou para a direção. Não faz sentido que um jogador, qualquer um e por mais talentoso que seja, possa influenciar a decisão da direção de um clube ou de uma federação».

O treinador acrescentou: «Quando se perde é normalmente quando conheço melhor as pessoas. Quando se ganha vamos embalados na onda da euforia e da satisfação. Não esperava mais nem menos de Ronaldo. Tive um prazer enorme em treinar a Seleção, e Ronaldo de tempos a tempos.»

Com Fernando Santos, a harmonia durou anos. Os elogios circulavam nos dois sentidos e a ligação parecia inabalável. Depois da conquista do Euro 2016, em particular, Ronaldo enaltecia repetidamente o treinador e a sua capacidade de acreditar.

Entre os exemplos ficaram as palavras no balneário do Stade de France, imediatamente após o título europeu, e o discurso quando recebeu o The Best, no final desse ano. Fernando Santos também estava nomeado para melhor treinador, mas não ganhou. «Gostava que tivesse ganhado, mas fica para a próxima, mister», disse-lhe o capitão.

Santos, por sua vez, insistia em conferências de imprensa e entrevistas que Ronaldo era o melhor futebolista do mundo. Era também o único a quem garantia um lugar no onze, batendo na madeira para desejar que nada lhe acontecesse.

O Mundial 2022 trouxe uma mudança: o selecionador entendeu que a equipa também podia jogar sem o capitão. Substituiu-o uma primeira vez, depois uma segunda, e à terceira surgiu a reação de Ronaldo.

«Está com uma pressa do c... para me tirar, f...», afirmou ainda dentro de campo. Já no banco, continuou a manifestar insatisfação.

Ao rever as imagens na televisão, Fernando Santos ficou profundamente desagradado. Ronaldo não voltou a começar um jogo como titular. O desconforto entre ambos tornou-se visível, apesar das tentativas do jogador de o disfarçar em nome do interesse coletivo.

Após a eliminação diante de Marrocos, o capitão saiu em lágrimas. Passou pelo selecionador, que lhe deu uma pequena palmada nas costas, e seguiu sem parar até ao balneário.

Foi a namorada quem tornou públicas as críticas.

«Hoje o teu amigo e treinador decidiu mal. Esse amigo para o qual tens tantas palavras de admiração e respeito. O mesmo que, ao colocar-te em campo, viu como tudo mudou, mas era tarde. Não se pode subestimar o melhor jogador do Mundo, a sua arma mais poderosa. Muito menos se deve dar a cara por quem não o merece. A vida dá-te lições. Hoje não perdemos, aprendemos. Admiramos-te, Cristiano», escreveu Georgina Rodriguez nas redes sociais.

Fernando Santos acordou depois a rescisão com a Federação e Roberto Martínez assumiu o comando. Ronaldo não dirigiu qualquer palavra ao selecionador que saía. Ao homem que tanto elogiara por ocasião do Euro 2016 não dedicou uma mensagem de despedida nem qualquer comentário posterior.

Já a passagem de Jorge Jesus pela vida de Ronaldo na Seleção foi curta. Os dois conheciam-se do Al Nassr, onde tinham partilhado um ano de sucesso no futebol árabe, e trocaram elogios antes da estreia do treinador à frente da equipa nacional.

Jesus descreveu então Ronaldo como «um símbolo de Portugal e da Seleção». O capitão mostrou-se disponível para qualquer cenário: começar de início e cumprir os noventa minutos, ser titular e sair, entrar a partir do banco ou permanecer como suplente sem ser utilizado.

Mas foi precisamente a primeira vez em que ficou no banco sem entrar que desencadeou o afastamento. Ronaldo desagradou-se por ter aquecido durante muito tempo sem ser chamado a jogar. Não participou no primeiro treino de campo e chegou a sair do estádio para regressar ao hotel. Nesta quarta-feira, Jesus negou a existência de um conflito.

«Isto parece que há aqui um caso entre mim e ele. Não há caso nenhum, pá. Já tive casos com muitos jogadores, mas não queiram fazer disto um caso que não existe. Isto foi uma opção de treinador que tinha um plano. O estatuto é uma coisa, as regras são iguais para todos», afirmou.

O selecionador reforçou: «O estatuto não dá direito para que os jogadores sejam diferenciados. O estatuto é o respeito pela carreira deles. Mas quem decide sou eu. Eles sabem disso. No clube manda o presidente, na equipa mando eu. Com os jogadores é igual». Na mesma ocasião, anunciou que Gonçalo Ramos voltaria a ser titular, desta vez frente à Dinamarca.

Ronaldo recebeu mal essas declarações e decidiu sair imediatamente do estádio e deixar a Seleção Nacional. Jesus reagiu com grande exaltação ao saber do sucedido, ainda no relvado, mas a decisão estava tomada. Mais tarde, o capitão confirmou a saída do estágio.

«Após a conferência de imprensa do Selecionador Nacional, e no seguimento de uma conversa com o Presidente da Federação Portuguesa de Futebol, tomei a decisão de deixar o estágio da Seleção Nacional», escreveu no Instagram.

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