Entre o piquenique e o sonho, Lamelas resiste ao Vitória e celebra a Taça
«Olha a rifa! Vale um presunto! Olha o cachecol do Lamelas!»
Uma peregrinação de azul e branco rumou a Castro Daire e deixou praticamente vazia a modesta aldeia de Lamelas, com 300 habitantes. A expectativa era enorme para o encontro inédito entre a formação do distrital de Viseu e o adversário da Liga. Um sábado histórico nas terras de Viriato e para a Associação Cultural Desportivo e Recreativo de Lamelas, criada em 1977 por filhos da aldeia.
A ambição passava por ser mais do que uma pequena comunidade de Castro Daire: queriam tornar-se uma referência regional. Receber o Vitória de Guimarães na terceira eliminatória da Taça de Portugal constituía uma ocasião singular. Com o Olhanense, eram os últimos representantes do futebol distrital ainda em prova.
«A nossa associação tem apenas futebol sénior. E é a única modalidade de competição. Temos também ginástica e karaté, já tivemos rancho folclórico», explica Alexandre Teles, homem de múltiplas tarefas no Lamelas.
Aos 52 anos, o antigo marcador de golos da aldeia fala com orgulho da evolução da associação à qual chegou há 28 anos como ponta de lança. «Gostava de pontapés de bicicleta», recorda. Pendurou as chuteiras no final do século, mas continuou ligado ao clube enquanto dirigente.
O encontro deste sábado faz regressar à conversa o desejo de disputar os campeonatos nacionais.
«Estivemos muito perto de subir ao Campeonato de Portugal na última época, à partida para a última jornada estávamos à frente do Castro Daire. Mas perdemos. Esta época é para lutar pela subida. Temos três empates e um jogo a menos. Não é o ideal, mas hoje é dia de festa.»
Enquanto sonha com uma segunda presença no Campeonato de Portugal, o candidato Lamelas ocupa o nono lugar da principal divisão distrital de Viseu. Soma seis pontos, menos nove do que o líder Penalva do Castelo.
Teles vai dividindo a conversa entre seguranças, companheiros, amigos e pessoas que não conhece. As tarefas acumulam-se antes do início da partida. A população de Lamelas e de Castro Daire empenhou-se numa receção capaz de envergonhar clubes da Liga, desde logo pelas condições da tribuna de imprensa.
Mais afastada do movimento, numa zona abaixo do Municipal de Castro Daire, Bárbara almoça com os pais e amigos da família. Professora de Guimarães, vitoriana e com 29 anos, saiu cedo da cidade berço. Pelo caminho, houve a indispensável passagem pela Senhora dos Remédios, em Lamego.
Seguir o Vitória é uma obrigação ditada pelo sangue. Bárbara e o pai marcaram presença no Jamor nas finais da Taça de Portugal de 2013 e 2011. A professora, que conta 25 anos de associada, também esteve no Estádio da Luz uma semana antes.
Para aquele grupo, ganhar é igualmente uma exigência, apesar das lamentações sobre a instabilidade e até a crispação que se vivem no clube.
O mais velho, o «senhor Joaquim», acompanha a deslocação depois de ter feito uma promessa em sentido contrário, em Elvas, em janeiro de 2025. Na sequência da inesperada eliminação, o adepto, com mais de 50 anos de sócio, garantira que não voltaria a ver partidas da Taça em recintos fora de Guimarães. Ainda assim, ali estava em Castro Daire. A paixão acaba por vencer as desilusões.
Sobre uma mesa improvisada encontram-se panados, rissóis, bola de Lamego e várias bebidas. O convite para petiscar não admite negociação: é para aceitar, sem recusas.
«Olha a rifa! Vale um presunto! Olha o cachecol do Lamelas!»
Enquanto os jogadores aquecem no relvado sintético e centenas de pessoas entram nas bancadas, José Carlos de Sousa continua no exterior. Aos 64 anos, procura vender os cachecóis e as camisolas que restam. Natural de Lamelas e um dos que ajudaram a fundar a associação, tem o número 27 de sócio, embora deixe uma ressalva: «O número de sócios ainda não foi atualizado».
Mal pode esperar pelo terceiro encontro do clube do coração na Taça, o primeiro diante de uma equipa da Liga. Sonhador assumido, não se deixa impressionar pela força de quem está do outro lado.
«Podemos fazer história. Para mim ainda não está perdido. Acredito sempre até ao fim», afirma, antes de algumas dezenas de pessoas se aproximarem para adquirir rifas, com o presunto na mira, além de camisolas e cachecóis. Quanto a bilhetes, restavam apenas lugares na bancada visitante: os 800 destinados ao Lamelas tinham esgotado no início da semana.
Antes de a bola começar a rolar, houve uma homenagem a Luís Carlos Pereira Carneiro, conhecido como Licá, de 38 anos. Nascido em Lamelas, o antigo extremo de FC Porto, Vitória, Estoril e Nottingham levou para o campo a bola do pontapé de saída. Na última época, o avançado marcou 19 golos em 33 partidas.
O entusiasmo da bancada azul e branca, à altura de uma ocasião histórica, passou para os jogadores orientados por Rui Gomes. A equipa reúne jovens e veteranos, estudantes e profissionais de diferentes ofícios. Frente ao Golias vimaranense, o David de Lamelas mostrou-se destemido, organizado a defender e sereno com a bola, embora lhe faltasse capacidade para desenvolver as saídas em contra-ataque.
A primeira parte teve praticamente um só sentido e a resistência da equipa da casa sofreu um duro revés com a expulsão de Ruizinho. O médio recebeu cartões amarelos aos 6 e aos 43 minutos.
Entre os jogadores do Lamelas, destacou-se Dani Dias, guarda-redes de 28 anos que representa o clube desde 2023. Defendeu 11 remates e sobressaiu diante de Telmo Arcanjo, Ouotro, Alanzinho e Mitrovic. Não conseguiu, porém, impedir Miguel Maga de aproveitar uma recarga para rematar com força para o golo.
Corria o minuto 78 quando o lateral marcou pela primeira vez na temporada, aliviando a inquietação dos vimaranenses, incluindo a do treinador Tiago Margarido.
A alma de Viriato manteve-se no Lamelas até ao último instante. Já as pernas dos jogadores do Vitória não tiveram a mesma resistência, com Francisco Dias, Strata, Sidibé e Ouotro entre os lesionados.
Ainda assim, os visitantes seguraram a vantagem, evitaram outra eliminação inesperada e garantiram lugar na quarta eliminatória. A festa, essa, não terminou com o jogo. À saída do Municipal de Castro Daire, em vez de queixas, ouviram-se cânticos e aplausos, entre bandeiras e sorrisos. Pela Taça, palco da genuína celebração do futebol nacional, a aldeia de Lamelas deu-se a conhecer ao país.
O dia 17 de outubro de 2026 ficará como o sábado em que Lamelas contrariou as probabilidades e cresceu perante o desafio. Um testemunho da persistência de quem vive o futebol por amor ao jogo. O marcador serve apenas para determinar quem continua na competição.
Talvez o país volte a esquecer Lamelas. Naquela aldeia de Castro Daire, porém, ninguém esquecerá esta jornada. Quem sabe se haverá um regresso!
Queres saber isto antes de todos? Entra no grupo gratuito do Corvo Bets.
Entrar no grupo