Ronaldo e Jorge Jesus: todos os passos da crise na Seleção

Internacional
Ronaldo e Jorge Jesus: todos os passos da crise na Seleção

Um psicodrama, um abalo na Seleção sem paralelo desde o célebre «caso Saltillo», um equívoco. Traição, abandono e deserção foram outras das expressões associadas ao episódio.

Em 30 de setembro, há precisamente uma semana nesta quarta-feira, Jorge Jesus apresentou-se aos jornalistas às 16h00 para antecipar o Dinamarca-Portugal e explicar o desagrado de Cristiano Ronaldo com o selecionador no fim do encontro com a Noruega, em Oslo. As palavras do treinador desencadearam a reação do capitão.

Enquanto percorria os corredores e o relvado do Parken Stadion, em Copenhaga, Ronaldo acompanhou a conferência através dos auriculares. Depois de ouvir Jesus, decidiu abandonar o estágio.

Uma semana volvida, multiplicam-se os relatos e as explicações para um dos assuntos que mais marcaram a atualidade do futebol nestes dias. O diferendo entre o avançado e o selecionador tem conhecido sucessivos desenvolvimentos, acrescentando elementos a uma história cada vez mais complexa.

Para perceber a sequência dos acontecimentos, é necessário recuar não apenas a 30 de setembro, mas a agosto, quando ambos definiram o plano para esta janela internacional.

4 de agosto: ainda a gozar férias depois do Mundial, Cristiano Ronaldo vai à Cidade do Futebol assistir a um encontro de preparação entre o Al Nassr, que ali realiza o estágio, e o Almería. Nesse local, reúne-se com Jorge Jesus, como viria a confirmar no comunicado divulgado nesta terça-feira. Os dois acertam a utilização do avançado nos quatro primeiros compromissos portugueses na Liga das Nações: jogaria o primeiro e o quarto, ambos em território nacional. Foi igualmente colocada a hipótese de não acompanhar a equipa à Noruega e à Dinamarca, possibilidade que Ronaldo rejeitou.

20 de setembro: na véspera de juntar os jogadores para o arranque do estágio da Seleção, Jorge Jesus visita Cristiano Ronaldo em casa, em Lisboa. A conversa decorre tranquilamente e, segundo o futebolista, serve para reafirmar o que tinha sido acordado em agosto, numa reunião presenciada por Simão Coutinho, diretor-desportivo do Al Nassr.

26 de setembro: na conferência de antevisão do encontro com a Noruega, em Oslo, Jorge Jesus diz ainda não ter decidido se vai utilizar Cristiano Ronaldo. «Amanhã vou ver como ele está. Se o lanço de início ou se vai para o banco. O Cris, queiramos ou não, não é o João Neves, que tem 20 anos e pode jogar dois jogos seguidos de três em três dias. Temos de olhar por aí. O treino vai dizer-me alguma coisa», declara. O selecionador deixa em aberto a participação do avançado e elogia o seu envolvimento diante do País de Gales, destacando os sete remates efetuados.

27 de setembro: Cristiano Ronaldo começa no banco frente à Noruega. Durante a segunda parte, aquece por mais de meia hora, mas não entra. Mal termina o jogo, ganho por Portugal por 2-1, segue diretamente para o balneário, sem acompanhar os colegas nos habituais agradecimentos aos adeptos. Nas entrevistas rápidas, Jesus justifica a ausência de utilização do capitão: «Senti que o jogo estava a pedir outras coisas». Pouco depois, na conferência de imprensa, é questionado sobre a reação de Ronaldo. «Tenho de falar com ele. (…) Ele, como capitão de equipa…», responde, sem concluir a ideia. Ainda nessa noite, o avançado procura desvalorizar o episódio, que já tinha repercussão internacional. «Vamos», escreve a propósito da vitória na Noruega. Pela primeira vez em 18 anos, não tinha saído do banco num encontro da Seleção relativo a uma grande competição ou a uma fase de qualificação.

29 de setembro: dois dias após o jogo de Oslo, Cristiano Ronaldo falha o treino em Malmo, cidade fronteiriça sueca onde a equipa portuguesa prepara a deslocação a Copenhaga para enfrentar a Dinamarca. O que mais surpreende é ter chegado ao estádio e regressado depois ao hotel numa carrinha. Segundo a FPF, cumpriu trabalho específico de ginásio. Antes disso, ao sair do autocarro junto ao estádio, Jesus transmite uma imagem de normalidade na relação com o capitão: «Falo com o Cristiano todos os dias e todos os minutos.» Já depois de treinar no ginásio do hotel e de tomar banho, Ronaldo publica no Instagram uma fotografia em que surge sorridente, com o equipamento português, acompanhada por um coração.

29 de setembro: Pedro Proença adianta a deslocação à Dinamarca e chega ao país na madrugada de dia 30. Nessa altura, os problemas entre Jesus e Ronaldo já terão ficado ultrapassados. Menos de 24 horas depois, os acontecimentos contrariariam essa perceção.

30 de setembro: às 16h00, Jorge Jesus e Rúben Dias apresentam-se perante a comunicação social no Parken Stadion. Cristiano Ronaldo encontra-se a poucas dezenas de metros, a ouvir o selecionador através dos auriculares. É hoje conhecido que ambos tinham conversado e preparado alguns dos assuntos que o treinador deveria esclarecer. Jesus reconhece que foi um erro deixar alguém com o estatuto de Ronaldo tanto tempo a aquecer na Noruega. Confirma também o acordo para que o avançado não disputasse os dois encontros na Escandinávia, mas explica que mudou de opinião e, por isso, o convocou para o jogo com os noruegueses. Ao negar a existência de «um caso», sustenta que a pressão mediática o fez sentir necessidade de conversar com o jogador. Sublinha ainda que é ele quem decide as opções técnicas, como acontecia nos clubes, e que todos estão sujeitos às mesmas regras, seja qual for o estatuto. Anuncia também que Gonçalo Ramos será titular, salvo algum imprevisto no treino.

Ainda em 30 de setembro: poucos minutos depois, Ronaldo recolhe a mala e deixa o estágio numa carrinha, à revelia do selecionador.

Mais acontecimentos do prolongado 30 de setembro: apesar das tentativas para o fazer mudar de ideias, o avançado mantém a decisão e confirma que resolveu sair do estágio depois de conversar com o presidente da Federação Portuguesa de Futebol. Sobre os motivos, limita-se a anunciar: «A seu tempo, direi toda a verdade.» A FPF só posteriormente confirma a saída de Cristiano Ronaldo, numa resposta breve à dimensão do problema, acrescentando que a preparação dos jogos com a Dinamarca e a Noruega continuará como planeado e com «foco absoluto». Cerca das 22h00, o avião privado do jogador levanta voo de Copenhaga em direção a Madrid.

1 de outubro: Cristiano Ronaldo chega à capital espanhola, onde ficará nos dias seguintes, antes de viajar para a Arábia Saudita no dia do Portugal-Noruega. Apesar da hora tardia, cerca de uma dezena de adeptos espera por ele, com aplausos e mensagens de apoio. Começam então a surgir versões sobre as razões do abandono. Edu Aguirre, jornalista espanhol próximo do avançado, acusa Jorge Jesus de «traición» e afirma que o treinador lhe prometera um pedido público de desculpas. Jesus negaria essa versão depois do encontro com a Noruega, no Dragão. O caso chega também à esfera política. O primeiro-ministro, Luís Montenegro, conversa com Ronaldo, Jesus e Proença, enquanto o presidente do Governo Regional da Madeira defende o jogador madeirense. Marcelo Rebelo de Sousa, ex-Presidente da República, adota uma postura bastante mais reservada do que em muitas outras ocasiões.

Ainda em 1 de outubro, dia de jogo: Portugal derrota a Dinamarca por 4-2. Os futebolistas recebem orientações para não abordarem o «tema Ronaldo». Jorge Jesus, por seu lado, afirma não estar arrependido de nenhuma das declarações da véspera. Assegura que continua a «pensar da mesma maneira» e insiste na igualdade das regras para todos. Recorda, contudo, momentos felizes ao lado do capitão: «Até tocava bombo com o Cris…»

2 de outubro: avançam contactos para promover um encontro de reconciliação entre Jorge Jesus e Ronaldo. Pedro Proença toma a iniciativa, conversando com a estrutura de apoio ao avançado, designadamente Tiago Craveiro e Simão Coutinho. O selecionador mostra disponibilidade para resolver o conflito, mas estabelece um limite: não fará uma penitência pública. No mesmo dia, Ronaldo coloca um gosto numa declaração de Felipe Melo à televisão brasileira Sportv, gesto que gera polémica. «Ninguém ali na Seleção de Portugal chega no tornozelo do Cristiano», tinha afirmado o antigo internacional brasileiro.

3 de outubro: na antevisão do Portugal-Noruega, no Estádio do Dragão, Jorge Jesus classifica Cristiano Ronaldo como um símbolo da Seleção e remete para depois do encontro qualquer conversa sobre uma possível reconciliação ou o regresso do capitão. Bruno Fernandes, que assume a braçadeira na ausência do avançado, apela à união e defende que uma despedida de Ronaldo da equipa nacional só fará sentido num dia de celebração.

4 de outubro: Portugal bate a Noruega e termina a janela internacional com quatro triunfos em quatro partidas, numa altura em que Cristiano Ronaldo já está em Riade. Após o jogo, Jesus questiona como pode «uma situação que não dá para entender» acabar com uma amizade de um ano. Adianta que Ronaldo poderá figurar na convocatória seguinte se estiver a jogar pelo Al Nassr. Proença, que não quer discutir um eventual castigo, considera que a questão está nas mãos do selecionador. Jesus defende igualmente que o avançado merece sair da Seleção de outra maneira, mas reafirma a existência de princípios dos quais não abdica enquanto treinador. Garante ainda que não deve desculpas a Ronaldo e que nunca lhe prometeu pedi-las.

5 de outubro: Cristiano Ronaldo regressa ao trabalho no Al Nassr, sorridente e com uma imagem renovada. Nesse dia, o jornalista Piers Morgan, amigo do jogador, defende-o no podcast «Football Uncensored (Futebol Sem Censura)». Segundo Morgan, Jesus não cumpriu promessas e, depois de se desculpar em privado, humilhou o avançado em público. Na CNN Portugal, Rui Santos afirma que Ronaldo não regressará à Seleção enquanto Jorge Jesus estiver no cargo. O comentador acrescenta que o capitão ficou «muito mal impressionado» com as intervenções do treinador e de Pedro Proença na véspera, no Dragão, e mesmo «indignado» com as palavras do selecionador.

6 de outubro: torna-se público o conteúdo de um discurso entregue a Jorge Jesus para ler ou usar como orientação na conferência de imprensa que antecedeu a saída de Ronaldo. Organizado em oito pontos, o documento inclui uma espécie de reconhecimento de culpa por parte do treinador e diversos elogios ao avançado. Jesus cumpriu apenas parte desse guião de penitência, chegando a comparar Ronaldo a Pelé e Maradona, que também não teriam apreciado aquecer durante tanto tempo sem entrar em campo. Ficou por dizer, entre outros pontos, que queria «muito» o jogador na Seleção, que este sempre fora «exemplar, leal e profissional», que amava a equipa nacional e que exercia nela um «peso e influência positiva» há 24 anos.

6 de outubro, à noite: quase uma semana depois, Cristiano Ronaldo explica a sua posição num extenso comunicado nas redes sociais. Aponta dois momentos de quebra de confiança por parte do selecionador: a promessa de que jogaria 30 minutos e a questão das desculpas, que assegura nunca ter exigido ao treinador. Defende que a atitude de Jesus na conferência não correspondeu ao que tinham conversado, primeiro a sós e depois, «a pedido do selecionador», numa reunião com Simão Coutinho e Tiago Craveiro por videoconferência. Confirma a existência do guião destinado à conferência de imprensa e afirma que o «pequeno documento» foi entregue ao técnico por solicitação deste. No mesmo texto, pede desculpa aos portugueses e aos companheiros, mas não inclui Jorge Jesus nem o presidente da FPF. Reafirma a disponibilidade para representar Portugal e reconhece que não deveria ter saído do estágio, apesar da «quebra de confiança do selecionador». Considera também que a sua conduta deve ser «avaliada e punida pela FPF», sem circunstâncias atenuantes, entendendo que a condição de capitão agrava a responsabilidade.

7 de outubro: Jorge Jesus deixa a sua residência, na Charneca da Caparica, para trabalhar na Cidade do Futebol. Quando retira o automóvel da garagem, abre o vidro e faz uma curta declaração aos jornalistas: «Li o comunicado. E agora, como faço todos os dias, vou para a Federação trabalhar, pensar na equipa e na seleção portuguesa. Não tenho mais nada a dizer.»

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