Taça: Paredes agiganta-se nas Laranjeiras e afasta o Famalicão

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Taça: Paredes agiganta-se nas Laranjeiras e afasta o Famalicão

O Paredes justificou o estatuto de líder da Série A da Liga 3 e juntou-se aos tomba-gigantes da Taça de Portugal, ao deixar pelo caminho o Famalicão, da I Liga. Miguel Moreno marcou o golo que lançou a festa nas Laranjeiras, num domingo em que a prova voltou a mostrar que a dimensão de um clube nem sempre determina o tamanho das suas conquistas.

O encanto da Taça de Portugal vive muito para lá do relvado. Está nas bancadas preenchidas, nos adeptos vestidos com as cores do seu clube, nos abraços que juntam diferentes gerações e na convicção de que uma tarde pode tornar possível aquilo que parecia improvável. É o palco onde os emblemas mais modestos desafiam os maiores, onde a distância entre a distrital e a I Liga se pode esbater durante 90 minutos e onde uma cidade encontra um motivo comum para acreditar. Foi esse espírito que voltou a sentir-se em Paredes, este domingo.

O União, nome pelo qual os paredenses tratam o seu clube, fez bem mais do que sonhar. Combateu, suportou a pressão e mostrou mais determinação, entreajuda e consistência do que um Famalicão que não conseguiu traduzir em campo a diferença de escalões. Aos 41 minutos, Miguel Moreno acertou na baliza e deu início à celebração que já se pressentia pelas ruas. Foi o primeiro grande momento de euforia de uma cidade que apoiou continuamente a equipa. Na história deste duelo, David acabava de atingir Golias.

O apito final fixou o resultado em 1-0 e desfez o favoritismo dos minhotos, dando razão a quem nunca deixou de acreditar. O Famalicão de Carlos Carvalhal, que vinha da goleada sofrida frente ao Alverca, abandonou Paredes com mais um revés. A situação do treinador torna-se mais difícil, enquanto o União acrescenta uma conquista marcante à sua história. Algumas vitórias garantem apenas a passagem de uma eliminatória; outras permanecem na memória de todos os que estiveram presentes.

A festa nas Laranjeiras começou antes do jogo

Os 2483 espectadores esgotaram o Estádio Municipal das Laranjeiras, mas a animação arrancou bastante antes das 19h30, hora prevista para o início da partida. O programa incluiu fogo de artifício, coreografias especiais e tarjas de incentivo ao União. As bancadas ganharam as cores do Paredes e a cidade preparou-se para acolher um adversário de outro escalão, sem estar disposta a facilitar-lhe a tarefa.

O ambiente de domingo distinguia-se pela movimentação à volta do estádio, pelas famílias que chegavam e pelas conversas sobre o adversário que o sorteio poderia reservar ao União se a surpresa se confirmasse. Poucas competições conseguem, como a Taça, transformar uma partida numa festa de todos. Por algumas horas, a posição na tabela, os diferentes orçamentos e o peso dos nomes nas camisolas passam para segundo plano. O essencial é participar, sentir o clube e manter a esperança.

Cada cântico ouvido nas Laranjeiras reforçava a ligação dos adeptos ao Paredes. Cada salva de palmas recordava aos jogadores que tinham companhia na luta. Do outro lado estava uma equipa com o estatuto da I Liga. Do lado dos anfitriões, havia uma cidade empenhada em ajudá-los a alcançar um resultado que ficasse na história, um apoio impossível de traduzir em contas ou orçamentos.

A família Barroso levou a esperança para a bancada

Martim, a quem chamam Barroso, integra os sub-15 do Paredes. Neste domingo, deixou por momentos o papel de futebolista para apoiar o clube na bancada. Acompanhavam-no a irmã mais nova, a mãe e a avó, Fernanda Barroso. Apesar de ter um pé magoado e de precisar de canadianas, a avó não quis faltar a um encontro que prometia fugir à rotina. Todos chegaram vestidos com as cores do União.

O jovem, que joga no Paredes há três anos, sentia de forma especial a importância da ocasião. «É um jogo muito importante. Se ganharmos, vai ser muito bom para o clube e para a cidade, que vai ficar mais conhecida», afirmou. Além da vitória, tinha outro desejo: receber nas Laranjeiras um dos grandes do futebol português. Na hora de apontar um possível adversário para a eliminatória seguinte, a preferência estava definida: «Gostava que viesse o Porto».

Fernanda Barroso também acreditava no apuramento e arriscou um resultado. «Eu acredito que vai ficar 2-1 para o União», disse, antecipando um triunfo que viria a concretizar-se, embora com outro marcador. Sempre que lhe é possível, acompanha a equipa, e desta vez considerou indispensável estar presente. Ao descrever a maneira como a cidade vivia o jogo, bastaram-lhe poucas palavras: «É uma loucura».

A mobilização estendia-se a toda a família. A irmã mais nova participava na festa, a mãe acompanhava-os e Fernanda fez questão de chegar ao seu lugar, mesmo com as limitações para caminhar. A Taça também se explica através destes momentos, sem necessidade de grandes discursos. Uma avó apoiada em canadianas, um neto que representa o clube e uma família reunida em torno da mesma ambição retratavam bem o significado daquele encontro.

Manuel Nunes confiava na resposta do União

Aos 50 anos, Manuel Nunes segue de perto o percurso do Paredes. Reconhecia o carácter especial do ambiente vivido no domingo, mas acreditava que a equipa tinha mais para oferecer do que uma boa festa nas bancadas. «É um dia diferente, é a festa da Taça. É sempre uma motivação extra para nós», afirmou, seguro de que o União podia lutar pela passagem à ronda seguinte.

A confiança nos jogadores levou-o a deixar uma mensagem clara ao adversário: «Temos um plantel mesmo muito forte e acredito que vamos dar uma boa resposta. O Famalicão, se nos quiser bater, vai ter de correr muito atrás da bola».

Perante um emblema da I Liga, as palavras poderiam parecer ousadas. O desenrolar do encontro, porém, acabou por sustentá-las. O Paredes não entrou em campo apenas para participar, nem ficou a observar os recursos individuais dos minhotos. Procurou competir, disputar todos os lances e demonstrar ao favorito que o apuramento exigiria muito mais do que o peso do seu estatuto.

Manuel Nunes tinha igualmente bem estabelecidas as prioridades para o resto da temporada. Questionado sobre o que escolheria entre chegar à final da Taça e subir de divisão, não hesitou: «Preferia a subida de divisão». Por maior que seja a capacidade da Taça para despertar ambições, o campeonato mantém-se como principal objetivo.

Ainda assim, eliminar uma equipa do primeiro escalão tornava particularmente apelativa a hipótese de receber outro clube histórico nas Laranjeiras. «Se ganhar um pequeno, sem dúvida que ainda é melhor», reconheceu, voltando depois a manifestar a vontade de terminar a época a festejar a subida. Naquele domingo, contudo, tabelas e contas podiam esperar. A tarefa imediata era enfrentar o Famalicão e tentar construir um capítulo especial no percurso do União.

Organização e coragem contra as dificuldades do favorito

Desde os primeiros minutos, o Paredes deixou claro que não pretendia ceder toda a iniciativa. João Vigário rematou por cima aos 14 minutos e, dois minutos mais tarde, Beney exigiu uma boa intervenção a Fábio Matos. Os minhotos procuravam controlar o encontro, mas esbarravam numa formação da casa organizada, agressiva e capaz de limitar os acessos à baliza. Aos 31 minutos, Sorriso tentou o remate de longe. A ameaça decisiva, porém, pertenceu aos anfitriões: aos 40, João Vigário rasgou a defesa adversária com um passe para Miguel Moreno, que apareceu em velocidade, ficou isolado e finalizou de forma colocada para o 1-0. A explosão de alegria nas Laranjeiras premiava a consistência e a entreajuda de um Paredes que contrariava no terreno a distância entre os escalões.

Logo após o intervalo, a equipa da casa esteve perto de aumentar a vantagem. Aos 47 minutos, Franco Almara aproveitou um mau atraso de Gustavo Garcia, mas atirou por cima. A resposta do Famalicão surgiu por Erik Santana e Beney, e Carlos Carvalhal lançou Pedro Santos, Gil Dias e Pedro Bondo aos 58 minutos. Aos 64, Fábio Matos voltou a ser determinante, travando uma tentativa de Sorriso e conservando a baliza inviolada. À medida que o tempo avançava, os adeptos festejavam cada corte, cada defesa e cada bola afastada como se fossem golos. Aos recursos teoricamente superiores do adversário, o União contrapôs disciplina, esforço e sentido coletivo, fazendo da resistência o caminho para manter o apuramento ao alcance.

Uma celebração que continuou para lá do estádio

O último apito transformou em certeza a esperança que acompanhara os paredenses desde o fogo de artifício antes da partida: o União afastara um adversário da I Liga. Seguiu-se uma festa intensa, que não ficou confinada às Laranjeiras. Continuou no caminho de casa, nas palavras trocadas entre adeptos, nos sorrisos e na sensação de terem assistido a um daqueles jogos que resistem à passagem do tempo.

Haverá quem guarde sobretudo o remate de Miguel Moreno. Outros recordarão a intervenção de Fábio Matos, a ansiedade dos minutos finais ou um abraço a quem partilhou a bancada. Para os Barroso, a jornada ficará também ligada à presença de Fernanda, que não deixou as canadianas impedirem-na de apoiar o clube. Para Manuel Nunes e muitos outros, o resultado confirmou que vale a pena manter a confiança na equipa.

É também aqui que reside o encanto da Taça de Portugal: no espaço que dá a todos, dos clubes de menor dimensão aos mais poderosos, de quem viaja centenas de quilómetros para acompanhar a equipa a quem enfrenta dificuldades para chegar ao seu lugar. Neste palco, um pequeno pode assumir a dimensão de um gigante sem perder a sua identidade. E é essa proximidade às pessoas que ajuda a tornar tão grandes triunfos como este.

Em Paredes, David venceu Golias sem precisar de mudar de nome ou de tamanho. Chegou-lhe a força do União. Quando a noite tomou conta das Laranjeiras, a cidade tinha mais uma história para partilhar: um relato de coragem, ligação ao clube e paixão pelo futebol. Aquilo que começara como uma ambição coletiva terminou com milhares de adeptos a transportar para casa a memória de uma vitória.

FICHA DE JOGO

Local: Estádio Municipal das Laranjeiras

Árbitro: Miguel Fonseca (AF Porto)

Assistentes: João Martins e André Ferreira

PAREDES: Fábio Matos; Pedro Araújo, Dénis Duarte, Gustavo Fernandes, João Vigário; Brais Val, Diogo Silva; Daniel Rodrigues (73), Miguel Moreno (86), Franco Almara (86); e Erik Santana (66)

Suplentes do Paredes: Tiago Gonçalves, Macedo, Zé Oliveira (86), Outeiro, Vasco Rocha, David Veiga, Ruca (73), Yuk Jinyoung (86) e Canário (66)

FAMALICÃO: Zlobin; Rodrigo Pinheiro, Gustavo Garcia (56), Leo Realpe, Victor Rofino; Van de Looi (90), Szukcs (56); Sorriso, Mathias Amorim, Beney (56); e Koustias (66)

Suplentes do Famalicão: Gabriel Cabral, Marcos Penã, Abubakar (66), Pedro Santos (56), Paulo Moreira, Gil Dias (56), Pedro Bondo (56), Serafimovic e Salas (90)

DISCIPLINA

Cartões amarelos: Rodrigo Pinheiro (58); Daniel Rodrigues (67); Pedro Araújo (72); Pedro Bondo (90+5); Salas (90+5); Abubakar (90+5)

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