Compra de 90% do Vasco pelo enteado da presidente do Palmeiras provoca contestação
A venda da SAF (Sociedade Anónima do Futebol) do Vasco da Gama está a provocar forte agitação no Palmeiras. Em causa está o facto de o empresário que se prepara para adquirir 90 por cento da sociedade do emblema do Rio de Janeiro ser enteado de Leila Pereira, presidente do verdão.
Marcos Lamacchia é filho de José Roberto Lamacchia, fundador da Crefisa, empresa de crédito pessoal presidida por Leila. A companhia foi a principal patrocinadora do clube paulista durante uma década, até ao final de 2024. Para uma parte dos adeptos do Palmeiras, a operação que envolve o Vasco representa um claro conflito de interesses.
Num comunicado conjunto, os grupos de adeptos Ocupa Palestra e Arquibancada recordaram que tinham tornado pública a sua preocupação com os riscos de conflito de interesses associados à compra da SAF de outro clube brasileiro por empresas do grupo económico familiar da presidente. Os dois movimentos sublinharam que o enteado de Leila lidera o processo e que o marido da dirigente e as respetivas empresas surgem como fiadores do negócio.
A tomada de posição aconteceu depois da divulgação de um áudio de uma intervenção de Leila dirigida a um conselheiro. Nesse discurso, a presidente do conjunto treinado por Abel Ferreira mostrou desagrado por ver questionada a dedicação dela e do marido ao Palmeiras e invocou o contributo de ambos para o clube ao longo dos últimos anos.
Na intervenção divulgada, Leila defendeu que os seus interlocutores não deveriam ficar em silêncio quando fossem colocados em causa o seu caráter e o do marido, pedindo-lhes que os defendessem. A dirigente questionou se o trabalho realizado não tinha valor e rejeitou as acusações de que a dedicação do casal ao Palmeiras não era total, classificando-as como mentiras proferidas por «meia dúzia de imbecis».
Leila garantiu que, até dezembro de 2027, tanto ela como o marido estarão inteiramente dedicados ao Palmeiras. Pediu ainda que, sempre que surgissem dúvidas sobre o caráter ou o compromisso de ambos, fosse tido em conta tudo o que fizeram pelo clube nos últimos dez anos, considerando não existir um contributo semelhante na história da Sociedade Esportiva Palmeiras.
A presidente salientou que o casal colocou mais de mil milhões de reais no clube. Reconheceu que as suas marcas beneficiaram de exposição, mas acrescentou que essa visibilidade poderia ter sido obtida noutros espaços, como televisões, rádios e jornais, onde também investiu. Explicou, porém, que quis estar ao lado do Palmeiras para ajudar o clube a chegar àquilo em que se transformou.
A dirigente afastou igualmente a possibilidade de ocupar um cargo no Vasco da Gama depois de terminar o segundo mandato no Palmeiras, em dezembro de 2027. Segundo afirmou, nessa altura regressará às suas empresas para se dedicar a elas.
Os adeptos que contestam a operação rejeitaram que a denúncia de um conflito de interesses constitua um «ataque pessoal». Alegaram também que a Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol da CBF abriu uma investigação e, em agosto passado, proibiu Vasco e Palmeiras de negociarem jogadores entre si. Em junho passado, José Roberto Lamacchia tinha reconhecido ser fiador da operação em cerca de dois mil milhões de reais.
A alienação de 90 por cento do Vasco, num negócio avaliado em quatro mil milhões de reais, pouco mais de 700 milhões de euros, recebeu nesta terça-feira a aprovação do Conselho Deliberativo do Palmeiras. A concretização formal da operação continua dependente de procedimentos legais.
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