O comunicado de Cristiano Ronaldo analisado em oito pontos

Internacional
O comunicado de Cristiano Ronaldo analisado em oito pontos

Sem qualquer ajuda, e muito menos o aval de terceiros, reuni oito pontos sobre o explosivo comunicado de Cristiano Ronaldo. Trata-se apenas da minha leitura.

1 - É (era) impensável imaginar Jorge Jesus a ler, como penitência, uma carta escrita por outras pessoas. Quem conhece o treinador sabe-o bem. Ainda assim, olhando com frieza para o contexto, acabou por cumprir uma parte significativa do guião. Não o seguiu à letra, mas transmitiu-o pelas suas próprias palavras. Ao seu estilo. Acompanhou parcialmente um discurso construído a várias mãos, em particular quando colocou Ronaldo ao lado de Pelé e Maradona.

2 - Reconheceu ter intervindo na escolha de Jorge Jesus e na aprovação da carta de mea-culpa do treinador. Expôs perante todos a dimensão da sua influência nas decisões da Seleção. Um poder praticamente absoluto. Daí resulta uma pergunta inevitável: já o tinha feito noutras ocasiões? Em quantas decisões dos últimos anos teve uma intervenção determinante?

3 - Apresentou desculpas aos portugueses e aos colegas por ter deixado a equipa. Finalmente, reconheceu o erro. Esteve bem. Sobre este ponto, pouco mais há a acrescentar.

4 - Confirmou que Simão Coutinho, CEO do Al Nassr, esteve presente para «mediar» as conversas internas com Jorge Jesus. Um profissional sem qualquer ligação à Federação. Tornou claro aquilo que muitos já sabiam e outros suspeitavam: a Seleção está refém das opções de um só jogador, como já sucedera, por exemplo, com o amigo Ricardo Regufe.

5 - Foi o primeiro — e, até agora, o único — a admitir a hipótese de uma punição por ter abandonado a equipa. Uma questão que, diga-se, o próprio presidente da Federação deveria ter esclarecido de imediato. Deixou a posição hierárquica de Pedro Proença mais fragilizada do que nunca.

6 - Fez questão de lembrar que não é apenas mais um jogador: é o capitão. É verdade. Isso, contudo, não o travou quando decidiu abandonar a equipa durante a concentração. Tudo porque o treinador não leu as palavras que queria ouvir. Na minha leitura, uma atitude infantil de um homem de 41 anos, reveladora de uma nítida perturbação narcísica.

7 - Reverteu a decisão de não voltar agora à Seleção. Logo depois de deixar a equipa, procurou transmitir que o seu regresso dependia da presença de Jorge Jesus. Sinceramente, sempre esperei que recuasse, mesmo que essa convicção tivesse alguma ingenuidade. Acertei.

8 - Depois de ter arrasado Jesus publicamente, como poucos fizeram nas últimas décadas, avançou de forma arriscada para uma «reconciliação», mesmo que apenas de fachada. Se vier a concretizar-se, porém, será muito provavelmente uma «paz podre».

Acreditem: esta é a verdade mais pura.

*Texto de opinião de Bruno Andrade, originalmente escrito em português do Brasil.

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