Coreia do Sul: festejos de futebolistas põem em causa isenções do serviço militar
O quarto ouro consecutivo da Coreia do Sul no futebol masculino dos Jogos Asiáticos trouxe celebrações, mas voltou também a alimentar um dos debates mais delicados do país. As palavras de vários jogadores sobre a possibilidade de não cumprirem o serviço militar obrigatório desencadearam fortes críticas e levaram os responsáveis políticos sul-coreanos a admitir a redução ou até a eliminação das isenções atribuídas aos atletas.
A controvérsia surgiu após o triunfo por 1-0 sobre o Japão, na final dos Jogos Asiáticos, em Aichi-Nagoya. Diante dos jornalistas, o capitão Lee Gi-hyuk ergueu a medalha de ouro e afirmou: «Não vou para o exército». Já Yang Min-hyuk explicou de forma ainda mais direta o que o motivara durante a prova. «A medalha e ganhar o campeonato não eram importantes, joguei apenas com uma coisa em mente: a recompensa da isenção do serviço militar.»
Também Park Seung-soo se viu envolvido na polémica. O futebolista partilhou nas redes sociais uma fotografia no balneário em que usava um boné habitualmente associado aos militares que concluíram o serviço obrigatório. Perante as críticas, a publicação foi eliminada e os jogadores apresentaram desculpas.
Lee Gi-hyuk admitiu que se deixara levar pela «felicidade, adrenalina e emoção do momento», dirigindo o pedido de desculpa sobretudo aos sul-coreanos que estão a cumprir o serviço militar. «Como adulto, deveria ter pensado cuidadosamente antes de falar. Lamento profundamente ter falado de forma tão descuidada», escreveu o capitão.
O peso do serviço militar na sociedade sul-coreana ajudou a ampliar a repercussão do caso. A maioria dos homens considerados aptos está obrigada a cumprir entre 18 e 21 meses de serviço antes dos 28 anos. Contudo, desde 1973, os atletas que obtenham qualquer medalha nos Jogos Olímpicos ou conquistem o ouro nos Jogos Asiáticos têm acesso a um regime alternativo. Em lugar do serviço convencional, cumprem três semanas de instrução militar básica e 544 horas de serviço comunitário ao longo de 34 meses.
A discussão depressa saiu do âmbito do futebol. Na terça-feira, o Ministério da Defesa anunciou que está a analisar a redução ou extinção do sistema, invocando a igualdade entre cidadãos abrangidos pelo recrutamento e a quebra do número de jovens disponíveis para o serviço militar. Esta quarta-feira, o ministro da Defesa, Kang Shin-chul, tornou a posição mais clara na Assembleia Nacional: «Reduzi-lo gradualmente e, em última análise, aboli-lo é o objetivo do Ministério da Defesa.»
Chae Hwi-young, ministro da Cultura, Desporto e Turismo, confirmou igualmente que a revisão do regime será feita em articulação com a Defesa e a Administração de Recursos Humanos Militares. Embora tenha reconhecido que o sistema possibilitou a atletas e artistas de excelência prosseguirem as suas carreiras, o governante sublinhou que «a perceção pública sobre o serviço militar e o valor atribuído à justiça parecem ter mudado consideravelmente com o passar do tempo».
O debate tem antecedentes. Son Heung-min protagonizou um dos exemplos mais conhecidos da aplicação deste regime, depois de liderar a Coreia do Sul na conquista do ouro nos Jogos Asiáticos de 2018. O tema alcançou também dimensão internacional quando os elementos dos BTS cumpriram o serviço militar obrigatório, apesar do êxito mundial da banda.
Desta vez, as celebrações dos futebolistas voltaram a colocar a questão no centro da discussão, deixando sob contestação um benefício que vigora há mais de cinco décadas.
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