Salgueiros: um golo de longe e uma alma que aponta ao futuro no Bolhão
Ver o histórico Sport Comércio e Salgueiros jogar em casa obriga os seus adeptos a deslocarem-se ao concelho de Santa Maria da Feira, a cerca de 30 quilómetros do emblemático Estádio Engenheiro Vidal Pinheiro, no Porto, entretanto demolido. Depois de várias moradas emprestadas, o Salgueiral trocou o piso sintético do Complexo Desportivo de Campanhã pela relva natural do Estádio do Bolhão, em Fiães.
Dizer que «o Salgueiros agora joga no Bolhão» pode levar a pensar, erradamente, que o clube continua a receber na Invicta. Na realidade, os encontros como visitado disputam-se na casa do Fiães, clube da distrital de Aveiro.
A distância e o horário da terceira eliminatória da Taça de Portugal, às 15h de domingo, ajudavam a explicar o silêncio que se sentia a hora e meia do apito inicial de João Pinheiro. Para lá das autoridades, estava uma senhora do Porto a preparar a venda de chapéus e cachecóis.
Nas proximidades deste Bolhão encontram-se o Interface de Transportes Lourosa e a Auto Viação Feirense. Terá provavelmente vindo dali o conjunto de bancos colocado no camarote destinado aos seis jornalistas. A lotação exata de um minibus cheio!
A viagem fez-se sem cinto de segurança, numa tarde de temperatura fresca e ambiente escaldante nas bancadas vermelhas e brancas. Perto de dois mil adeptos, entre os quais 150 do Estoril, quebraram a tranquilidade de Fiães.
A tensão junto da claque salgueirista levou a polícia a lembrar que não é permitido lançar beatas para o relvado, tendo um adepto sido identificado. Dentro das quatro linhas, o entusiasmo deu força à equipa de Rui Borges. O técnico, de 39 anos, estava castigado e não pôde ocupar o banco.
Apesar das ameaças estorilistas, o Salgueiros não se retraiu e procurou responder em contra-ataques, nem sempre livres de precipitação. Chegar à vantagem continuava ao alcance, embora parecesse um sonho cada vez mais distante. O Estoril apertava e lançava do banco jogadores habitualmente titulares: Ricard Sánchez, Guitane e Holsgrove.
Era preciso um lance impensável para mudar o rumo da tarde. E Deven Monteiro encontrou-o. O médio cabo-verdiano, de 25 anos, viu Martin Turk adiantado e disparou ainda antes da linha do meio-campo, contrariando o domínio do Estoril.
Seguiram-se a explosão de alegria, a invasão do relvado, as corridas, os abraços e as mãos levadas à cabeça. Tudo parecia anunciar o último momento da eliminatória, um golo de ouro, o desfecho desejado. O triunfo nunca estivera tão próximo. Seria Deven o herói da tarde? Entre os salgueiristas havia quem mal acreditasse. Um golo para a vida, precisamente num encontro sem transmissão televisiva.
O Estoril, porém, deixou Deven Monteiro na condição de “quase herói”. No meio da festa pela vantagem, o Salgueiros perdeu a lucidez e Guitane aproveitou para empatar em cima do minuto 90. O silêncio instalou-se por instantes, mas a celebração dos adeptos depressa regressou.
O resultado não apagava as muitas razões para festejar. Havia famílias equipadas a rigor, das crianças irrequietas aos veteranos de boina e bigode. Celebrava-se o reencontro do Salgueiros com uma equipa da Liga e a possibilidade de repetir triunfos memoráveis alcançados entre o final do século XX e 2002.
O prolongamento não resolveu a eliminatória e a decisão seguiu para os penáltis. Turk travou dois remates e garantiu a passagem do Estoril, por 3-1. Foi ele o herói do Bolhão.
Ainda assim, a alma do Salgueiros saiu mais forte. O caminho de volta a casa levava alguma amargura, como reconheceu Rui Borges depois da partida, mas o orgulho sobrepunha-se a qualquer lamento.
Poucos guardarão deste encontro a imagem do herói Turk. O “quase herói” Deven Monteiro, esse, vai correr Mundo. À saída dos balneários, o jogador nascido no Bairro Craveiro Lopes, na Praia, capital de Cabo Verde, partilhou os seus sentimentos com os jornalistas.
«Estou muito feliz, mas toda a equipa está de parabéns. Eu sei que as pessoas vão falar do meu golo, mas é mais importante falar da entrega da equipa. Estamos todos de parabéns. Acreditava que podia ser feliz se rematasse de longe, porque desde a primeira parte que analisei o adiantamento do guarda-redes do Estoril. Ele ficava sempre fora da grande área. Assim que tive uma oportunidade, tentei a minha sorte. Cheguei ao balneário um pouco feliz, pelo golo, mas triste pelo resultado, porque queríamos seguir para a próxima fase. Agora há que concentrar no campeonato.»
Quando lhe perguntaram pelas emoções sentidas durante os festejos, o médio de 25 anos encontrou na fé a resposta.
«Penso sempre na minha família. Estou em Portugal há dois anos e tenho muitas saudades deles. Peço a Deus que continuem a receber boas notícias de mim, quero que se orgulhem. Tenho ambição e quero chegar ao topo. Mas tenho de trabalhar muito.»
«Sinto algo diferente no Salgueiros. Antes do jogo, no balneário, vi pessoas a chorarem. É algo que me motiva muito e, por isso, dou o máximo», concluiu.
Alguns companheiros gracejavam com a «sorte» de Deven. O médio, contudo, assegurou que já tinha conseguido um lance semelhante na pré-época. Frente ao Estoril, foi indiscutivelmente ele quem concentrou as atenções.
Depois de representar o Celtic da Praia e o Boavista da Praia, Deven entrou no futebol português através do Mirandela, em 2024/25, conquistando a principal divisão distrital de Bragança. Seguiu-se meia época por Marialvas e Tirsense, ambos do Campeonato de Portugal. Chegou ao Salgueiros neste verão e soma dois golos em oito partidas, à procura de se afirmar.
Com a noite a instalar-se sobre um Estádio do Bolhão novamente vazio e silencioso, Fiães recuperava a tranquilidade de sempre. A freguesia de Santa Maria da Feira precisa do Salgueiros, enquanto o Salgueiral agradece as condições disponíveis, em particular o relvado natural.
Criado a 8 de dezembro de 1911, o Salgueiros está distante das décadas passadas na Liga e da presença na Taça UEFA, em 1991, diante do Cannes de Zidane. Mas o histórico clube portuense faz o seu caminho sem pressa. Com o sonho de chegar pela primeira vez à Liga 3, ocupa o sexto lugar da Série 2 do Campeonato de Portugal, a seis pontos da líder Ovarense, que recebe no domingo, às 15h.
O Salgueiral continua vivo, e bem vivo. Ao Estoril cabe seguir para a quarta eliminatória da Taça.
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